Bacafá

Bacafá

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Contos de quinta: O espelho

O espelho.

Todo dia acordo e me olho no espelho. Mas ultimamente está diferente. Envelheço anos em dias. O espelho me olha e não mente. É contundente. Sucinto, lacônico, mas contundente, feroz. Diz tudo o que eu não gostaria de ouvir. E só eu ouço o que fala. Fala pela imagem, minha imagem, estranha imagem, irreal imagem. Não pareço eu. Um homem mais velho, muito mais velho do que sou; ou do que gostaria ser, já não sei mais. Um homem solitário, sozinho, sem ninguém. Um homem sem sonhos, sem projetos, sem perspectivas. Afogado em remédios, pílulas que nada mais resolvem. Já não sei mais se alucinam, estimulam ou me deprimem. E eu só com um espelho. Um espelho franco que joga tudo na minha cara. Tudo o que já sabia e não lembrava mais; ou não queria lembrar. Quanto tempo faz? Quantas coisas foram? Quantas vidas vivi? Quantas vidas perdi? O passado não representa mais nada e estou aqui, sem presente, sem futuro e apenas com um espelho que me fala e me chama. Chama-me estranhamente, como se meu futuro ou não-futuro estivesse lá dentro. No reflexo. No reflexo de tudo o que tem aqui fora. Minhas olheiras, minha cara inchada, meu desânimo, minhas frustrações, tudo ali naquela imagem. Ou será no reflexo da imagem? Parece o início do fim. O espelho me chama, mas não quero ir. Ou será que lá vai ser tudo diferente? A vida diferente, uma vida nova, uma vida sem reflexos. Esse espelho me enlouquece. Diz o que não quero ouvir e me irrita. Mostra-me o que não quero ver e me devasta. Engole minhas lágrimas, cospe meus risos, não me deixa sentir. E nem sei o que quero sentir. Nem sei se quero sentir alguma coisa. A culpa é do espelho, só pode ser do espelho. Não é da minha cabeça. As luzes incomodam, os reflexos incomodam. Fecho os olhos, o espelho some por uns instantes. Mas volta a me chamar. Irritante. Olhando-me e condenando-me. E me comparando. Com os outros, com quem perdi, com quem me ganhou. Não aceito. Já não sei mais se o espelho não mente ou se quer apenas me enganar. Confundir-me. O espelho me trai. Eu me contraio. Com um soco quebro o espelho. Nunca mais vai me jogar na cara minhas verdades. E nem minhas mentiras. Os cacos por todos os lados. Todos me refletindo. Todos me perseguindo. Um caco no meu pulso. Tudo vermelho. Tudo escurecendo...

6 comentários:

Eu... disse...

Exatamente o Raphael que vi nesses últimos dias... sabia? Só pra constar: quando nos comparam a alguém, é porque somos suficientemente importantes para sermos lembrados, mesmo diante de algo ou alguém a quem julgou-se superior...

Carpe diem disse...

Muito bom raphael... eu me vejo exatamente dessa forma... "Afogada em remédios, pílulas que nada mais resolvem"
E na verdade, eu estou sempre procurando quem eu ainda sou.

Michele P. disse...

Lembrou-me Cecília:

Retrato

"Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida a minha face?"

Cecília Meireles

Carina disse...

Vc vem ficando cada ano melhor! Nos textos, digo eu. heheh
Parabéns, sempre espero a quinta chegar pra ler os contos. Vc está em ótima forma. :)
Beijos!

Alexandre disse...

E a criatividade vai aflorando. Mostrando que tem grandes possibilidades de uma nova publicacao.
Parabens.

K. disse...

Talvez não seja culpa dos espelhos, mas dos nossos próprios olhos... a forma como nos vemos.. Tem dias que não queremos nos ver, da maneira que o espelho aponta. É preciso termos sonhos, que nos trazem bons motivos para acordar todos os dias e nos olhar nos tais espelhos.Afinal, a beleza está nos olhos de quem a vê..
Parabéns pelo texto..