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quarta-feira, 18 de julho de 2012

Catrefa de proxenetas


“João amava Teresa que amava Raimundo / que amava Maria que amava / Joaquim que amava Lili / que não amava ninguém. / João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento, / Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia, / Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes / que não tinha entrado na história.”

Essa é a famosa poesia “Quadrilha” de Carlos Drummond de Andrade. Causou muita polêmica e muitos comentários assim como “No meio do caminho” e “José”. Mas a conversa de hoje não é sobre os aspectos literários do grande poeta. E nem estou dizendo que ele faz parte de uma corja de rufiões. Longe disso. Mesmo suas poesias eróticas são interessantes, completamente diferente do grupelho a que me referi no título deste texto, que também poderia ser “Suruba política” ou “Segredos das alcovas de Brasília”.

João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lilli, que parecia ser a mais descolada e não amava ninguém. Foi a única que se casou.

Ou na versão planaltina, Wilder Morais amava Andressa Mendonça que amava Carlinhos Cachoeira que amava Demóstenes Torres que não amava ninguém, apenas o poder. Andressa Mendonça viajou para a Europa fazer compras, Carlinhos Cachoeira foi preso. Demóstenes Torres se comparou a Jesus Cristo. Wilde Moraes se deu bem e virou senador. E o povo continua pagando a conta.

Wilder é considerado um dos empresários mais ricos de Goiás. Carlinhos não tem patrimônio para suportar seus gastos. Andressa acha que o atual marido é inocente. Demóstenes foi rifado do Senado e voltou a seu cargo público para ganhar R$ 22 mil por mês. E o povo continua pagando a conta.

Ninguém mais é ingênuo e todos sabemos que muitos dólares e reais correm nos bastidores políticos, em especial nos de Brasília. As notícias diárias confirmam esse fluxo financeiro. E isso ocorre no mundo inteiro; não é privilégio ou invenção do brasileiro.

O que incomoda de verdade, entretanto, é a desfaçatez e o cinismo dos nossos políticos. Na maioria dos países, aqueles pegos com a boca na botija têm vergonha na cara e saem da vida pública. Isso quando não se matam, utilizando-se do haraquiri. Alguns conseguem ficar no máximo quando se trata de escândalo sexual, e ainda com o apoio de suas mulheres.

No Brasil não. No Brasil o político ou funcionário público é pego com a mão na massa, o dinheiro na cueca ou o vídeo em rede nacional e diz que não é com ele. Ou pior, na melhor versão “mandem-me caixas de óleo de peroba”, dizem que o tal vídeo foi feito em outra gestão ou legislatura e não importa para a atual. Como se caráter e respeito ao povo se medisse de quatro em quatro anos. Igual cartão amarelo em campeonato internacional: zera antes das fases finais.

Infelizmente a cada dia que passa vemos mais proxenetas, como o tal Carlinhos Cachoeira, aparecendo, vivendo às custas das prostitutas que se tornaram alguns dos nossos políticos.

Que me perdoe Carlos Drummond de Andrade, mas “Quadrilha” também seria um bom título para o Ponto de vista de hoje.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

No meio do caminho.

Carlos Drummond de Andrade
(nascido em 31.10.1902)

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.

domingo, 29 de maio de 2011

Em face dos últimos acontecimentos.

                                               Carlos Drummond de Andrade
Oh! Sejamos pornográficos
(docemente pornográficos).
Por que seremos mais castos
Que o nosso avô português?

Oh ! sejamos navegantes
Bandeirantes e guerreiros
Sejamos tudo que quiserem
Sobretudo pornográficos.

A tarde pode ser triste
E as mulheres podem doer
Como dói um soco no olho
(pornográficos, pornográficos).

Teus amigos estão sorrindo
De tua última resolução.
Pensavam que o suicídio
Fosse a última resolução.

Não compreendem, coitados,
Que o melhor é ser pornográfico.
Propõe isso a teu vizinho,
Ao condutor do teu bonde,
A todas as criaturas
Que são inúteis e existem,
Propõe ao homem de óculos
E à mulher da trouxa de roupa.
Dize a todos: Meus irmãos,
Não quereis ser pornográficos?

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Ei-la aqui.

A mais nova Rocha Lopes da família. A minha mais bela sobrinha.

IZABELE
(Parabéns Beth e Alexandre!!!!)

E como tudo que é bom merece ser comemorado, um pouco da poesia de Carlos Drummond de Andrade:

Amar

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
Sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.