Bacafá

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segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

O homem duplicado e o ano novo.

Nada como começar o ano literariamente bem acompanhado. E José Saramago é um excelente companheiro. Há cinco anos comecei a ler O homem duplicado e por conta daquelas circunstâncias que não se explicam e livros lidos ao mesmo tempo acabei não terminando, embora a leitura estivesse adiantada. Pois bem, acabou. Ou acabei.

Esse (como sói ocorrer com todos os textos de Saramago) é o típico livro que não se encerra com a última linha. O que eu faria se, do nada, encontrasse uma pessoa exatamente igual a mim? Não um gêmeo perdido, mas um igual, um absolutamente igual, inclusive nas cicatrizes? O que você faria?

Em tempos de superexposição na internet e avalanches de selfies, onde nossa identidade volta e meia se perde dada a necessidade generalizada de sermos todos bonitos e felizes, e onde queremos ser diferentes sendo iguais a todo mundo, essa hipótese se torna ainda mais enigmática.

Entretanto, cometi um pecado. Vi o filme O homem duplicado já em seguida (com Jake Gyllenhall, e direção do atualmente festejado Denis Villeneuve). A película não é ruim, não mesmo. Mas falta a intensidade das personagens da caneta de Saramago - o que é perfeitamente natural. A angústia do filme não chega aos pés da expectativa das páginas.

Se quiser ver um bom filme (não um filme booommm), é uma sugestão - só não me pergunte da aranha. Se quiser ler um livro denso, melhor que o filme, recomendo. Se optar pelos dois, leia o livro antes.

Ao longo da semana repassarei alguns trechos do livro. Sem spoiler.

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Polêmica sobre a foto da menina nua na Guerra do Vietnã me lembrou o texto "Éramos pedófilos e não sabíamos?"

Parece-me indiscutível que entramos na era da loucura, da neurose. Um pouco pelas evidências das crueldades humanas (que sempre existiram, talvez até piores do que são hoje, mas que nunca tiveram a divulgação massiva e instantânea como atualmente), um pouco por conta da síndrome do "politicamente correto".

Agora a polêmica é sobre a famosa foto da menina nua na Guerra do Vietnã fugindo de um bombardeio americano com napalm. Crua, violenta e triste por si só. O Facebook resolveu tirá-la do ar. Voltou atrás. As razões podem ser lidas aqui.



Lendo os argumentos, lembrei de um texto sobre pedofilia que escrevi em fevereiro de 2011. Lá se vão mais de cinco anos. "Éramos todos pedófilos e não sabíamos?". Para ler, basta clicar no título aí do lado.

Não tenho certeza se a humanidade está evoluindo ou involuindo. Acredito muito fortemente na primeira opção, apesar de alguns desarranjos aqui e ali. O futuro nos dirá.

quinta-feira, 14 de abril de 2016

Telhado de vidro.



                   Um dos textos que mais me fez refletir na minha vida adulta é de um jaraguaense. “A falácia do telhado de vidro”, do advogado e professor Darwinn Harnack, de 2010. Lembrei dele no meio desta fuzarca que virou nossa política e as discussões de botequim. Cabe bem aqui, em dois aspectos, a meu ver.

                   Primeiro: “Todo o ser humano comete erros e é falível. Disso não restam quaisquer dúvidas. Porém, o escudo hoje tão utilizado do “não jogue pedras...” tem fundamentado uma atitude não recomendável de passividade perante os fatos da vida. Se todo o ser humano erra, isso não é motivo para deixar de se defender um padrão de conduta correto e voltado para o bem. Quem erra deve aceitar a crítica devida, mas não perde, por isso, o direito de também cobrar a correção da conduta alheia. Fosse assim, ninguém poderia criticar mais nada. Essa ideia é falaciosa e induz à passividade que tanto interessa a quem assume uma posição de comando, seja em uma instituição ou mesmo no Estado. Em outras palavras, não é porque alguém cometeu um ou mais deslizes na vida que está fora da órbita dos chamados “homens de bem”, que podem criticar e cobrar os demais. Todos têm esse direito e o “homem de bem” de hoje, pode ser o errado amanhã.”

                   De outro norte, o próprio contrapõe: “É bem verdade que o ataque irracional contra alguém que cometeu um erro na vida, constitui atitude leviana e própria de quem não calça mentalmente as sandálias do próximo antes de se pronunciar”. O professor tem razão nas duas colocações. Passividade a obscuros interesses alimenta. Raiva a nenhum lugar leva.

                   Está-se vendo, porém, a pessoalização nas discussões dos problemas que assolam nosso país. Poucos têm trazido soluções, muitos têm descarregado, com evidente ira, ataques irracionais claramente papagaiando o “que ouviram dizer”, às vezes sem a mínima noção do que repetem.

                   O momento é grave, o debate é necessário, o conhecimento de causa é fundamental e a reflexão é essencial. Independentemente de como terminar esta triste página da nossa história.

quarta-feira, 6 de abril de 2016

O código de honra.



                   Vivemos uma fase ímpar no Brasil. É, não tenho dúvidas, um momento de libertação. Independentemente do lado que se esteja, estamos passando por um processo de depuração política. Caindo ou não a Presidente da República ou o Presidente da Câmara, ou mesmo o do Senado, não se enganem os sobreviventes de que estarão a salvo do crivo popular. Uma nova era chegou. E creio que será diferente da apatia que se deu pós-1992.

                   Lendo “O código de honra: como ocorrem as revoluções morais”, do filósofo contemporâneo Kwane Anthony Appiah, no capítulo que trata do fim da escravidão atlântica, há lições que muito bem se aplicam a nossa realidade, embora discutidas nos anos 1820 pelos britânicos: “a informação às classes mais humildes sobre o tema em questão não é trabalho perdido, ao contrário de grande parte do que se dedica a seus superiores em cultura e posição”. Embora o próprio autor reconheça certa polêmica nesta afirmação, verificava-se que as classes médias e altas “tinham consciência dos horrores da escravidão e mesmo assim não faziam nada”. Pergunto-me se se aplica essa assertiva ao Brasil em relação aos horrores da corrupção, em tempos modernos? E estendo este questionamento às “pequenas corrupções” do dia-a-dia, como estacionar indevidamente na vaga de idoso, não devolver o troco a maior dado errado, jogar lixo na rua, furar fila, comprar cd pirata e por aí afora.

                   Continuando o raciocínio comparativo, ainda segundo o livro, nos anos 1830, na Inglaterra, houve manifestações que levavam cerca de 200 mil pessoas para comícios sobre reformas políticas, sendo que “o Parlamento se acostumou com a nova ideia de que devia responder aos julgamentos da nação – e não os direcionar”. O autor complementa o pensamento da época com um comentário de Disraeli, talvez, digo eu, com uma pitada de preconceito: “uma aristocracia esclarecida, que se colocou à frente de um movimento que não se originou dela, deveria ter corrigido, e não sancionado, os erros virtuosos de uma comunidade bem-intencionada, mas de mentalidade estreita”.

                   Já se vão quase 200 anos e a história parece, em sua essência, se repetir, em lugar e por motivos diferentes. Precisamos refletir.

quarta-feira, 30 de março de 2016

Os fins não justificam os meios.



E nem os êxitos, por si só, justificam os erros. Principalmente se tais erros ultrapassarem propositadamente o limite da ética.

Estou meio impaciente, além de triste, com o que tenho visto em decorrência dos despautérios no planalto central. Agora você é coxinha ou é petralha. Parece não haver meio termo. Pior, as discussões, salvo honrosas exceções, estão rasas, assustadoramente rasas. Estamos perdendo uma oportunidade fabulosa – não diria ímpar porque há 24 anos já passamos por algo similar – de democraticamente elevarmos o nível do debate e de esclarecermos definitivamente à população o que está acontecendo jurídica, social e politicamente. E, então, como deve ser num país democrático e republicano, cada um tiraria sua conclusão ou lapidaria sua opinião.

Mas, não é o que tenho visto, em regra. Não consigo entender como alguns lulo-petistas insistem em centrar a defesa da Presidente e do seu antecessor unicamente no mérito da ascensão de boa parte da população miserável que esse país tinha.  E, muito menos, argumentar que discutir impeachment é golpe. Não, o impeachment não é golpe. Não o será, pelo menos, se a ordem legal for respeitada. Faz parte do nosso presidencialismo tanto quanto o faz a eleição direta. Não, o sucesso de planos sociais não pode servir de cortina de fumaça para as falcatruas que estão se revelando como nunca antes na história desse país. Não existe compensação para corrupção e nem deve existir a vitimização do corrupto.

Por outro lado, não se pode aceitar que o legítimo e justo processo legal seja atropelado em nome de um suposto bem maior que é a depuração da classe política e, consequentemente, da sociedade. Isso, assim como o aparelhamento da administração pública, não é republicano e nem democrático. Subjetivismos desta natureza contaminam a democracia. E nossa democracia custou sangue, suor e lágrimas para ser assim desprezada. Não se pode esquecer, jamais, que os fins não justificam os meios e, mais, que a quebra do devido processo legal não repercute apenas para os políticos ora suspeitos. Reverberá, mais cedo ou mais tarde, para os cidadãos de bem. O devido processo legal é a base da Justiça e da Democracia e não podemos simplesmente não considerar esta hipótese porque gostamos ou não gostamos de alguém. Não se pode comer o fruto da árvore envenenada.

 É momento de indignação. Porém com reflexão e responsabilidade!

 Bacafá

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

The unbelievers.

Em português algo como Os descrentes ou Os Incrédulos (tradução oficial do filme). Assisti a esse documentário (de 2013) baseado em debates com e conversas entre Richard Dawkins e Lawrence Krauss, que contou, ainda, com a participação especial de  Woody Allen, Cameron Diaz, Stephen Hawking, Sarah Silverman, Bill Pullman, Werner Herzog, Bill Maher, Stephen Colbert, Tim Minchin, Eddie Izzard, Ian McEwan, entre outros artistas e cientistas.

Os colóquios tratam sobre a importância da ciência e da razão na consciência das pessoas e do porque discutir ciência em detrimento da religião, Dawkins, biólogo britânico, e Krauss, físico norte-americano, reconhecidos mundialmente em suas áreas, também são considerados dois dos maiores céticos (ou ateus, como queiram) que se dispõe a conversar e tratar do assunto.

Recomendo assistir o documentário, mesmo para quem é crente (no sentido amplo da palavra), eis que traz pontos de vista muito interessantes e, hoje em dia, talvez mais que em outros tempos, a reflexão é necessária. Estamos em época de Estado Islâmico e Boko Haram, entre outros fanáticos fundamentalistas, na mesma linha que a Igreja Católica estava alguns séculos atrás. Tudo isso se justifica?

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

1984: pontos nada modernos e ainda atuais.

Alguns dos raciocínios do livro do George Orwell vão ao encontro do que penso sobre política. Essa história de que os políticos ou os partidos querem oxigenação do poder é pura balela. Só o querem quando não estão lá. Querem apenas o poder e quando chegam, querem se perpetuar no topo. Ou alguém pensa diferente? Raciocínio básico; nem precisa de esforço para entender como as coisas funcionam.

A diferença são os meios pelos quais se consegue se manter no poder. Naturalmente um povo
esclarecido e educado tende a querer mudar quando a repetição se torna excessiva, o que leva a outra conclusão óbvia. Alguns se mantêm no poder por meios não tão claros. A questão é diferenciar o joio do trigo ou achar que tudo é farinha do mesmo saco.

"Porque se lazer e segurança fossem desfrutados por todos igualmente, a grande massa de seres humanos que costuma ser embrutecida pela pobreza se alfabetizaria e aprenderia a pensar por si; e depois que isso acontecesse, mais cedo ou mais tarde essa massa se daria conta de que a minoria privilegiada não tinha função nenhuma e acabaria com ela. A longo termo, uma sociedade hierárquica só era possível num mundo de pobreza e ignorância."

"Sabemos que ninguém toma o poder com o objetivo de abandoná-lo. Poder não é um meio, mas um fim. Não se estabelece uma ditadura para proteger uma revolução. Faz-se a revolução para instalar a ditadura. O objetivo da perseguição é a perseguição. O objetivo da tortura é a tortura. O objetivo do poder é o poder."

E, falando sobre classes sociais diferentes:

"Os objetivos desses três grupos são inconciliáveis. O objetivo dos Altos é continuar onde estão. O objetivo dos Médios é trocar de lugar com os Altos. O objetivo dos Baixos, isso quando têm um objetivo - pois uma das características marcantes dos Baixos é o fato de estarem tão oprimidos pela trabalheira que só a intervalos mantêm alguma consciência de toda a e qualquer coisa externa a seu cotidiano -, é abolir todas as diferenças e criar uma sociedade na qual todos os homens sejam iguais."

Ou seja, cada um por si e ninguém por todos...

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Isso não é uma competição, Sr. Willian Waack.

Assistindo ao Jornal da Globo, na Rede Globo, na última segunda-feira, entre tantos mandos e desmandos na política brasileira tratados como notícias, infelizmente algumas vezes policiais, veio à tona o assunto que dominou o início da semana (com o final de semana junto), que, a essa altura, já foi atropelado pelas Catilinárias da Lava Jato (uma coisa não se pode negar: a Polícia Federal é criativa na escolha dos nomes das suas operações!! E sempre tem uma justificativa erudita e sarcástica ao mesmo tempo).

Pois bem. O jornalista Willian Waack, âncora do Jornal da Globo, soltou um comentário mais ou menos assim: o Brasil melhorou no IDH, mas não adiantou nada, pois caiu uma posição (de 74o para 75o) e foi ultrapassado pelo Sri Lanka.

Como não adiantou, cara-pálida? Se o índice melhorou, adiantou, sim. Não estamos numa competição com os outros países. Quer dizer que se o índice tivesse piorado, mas tivéssemos subido uma ou duas posições (porque outros países teriam piorado mais) seria melhor ou adiantaria? É um jogo isso e ninguém foi avisado? Quero crer que tenha sido apenas um escorregão de raciocínio num programa ao vivo, apesar do jornalista ser extremamente experiente.

Apenas para ilustrar: o IDH é medido com quatro indicadores: expectativa de vida ao nascer; expectativa de anos de estudo; média de anos de estudo (da população até o momento); e renda nacional bruta per capita. Como os três primeiros indicadores melhoraram, o IDH brasileiro passou de 0,752 em 2013 para 0,755 no ano passado. O avanço não foi maior por conta da queda na renda. Ficamos entre a primeira colocada, Noruega (0,944), e o lanterna, Níger (0,348), num ranking de 188 países.

Isso não significa, também, que não estamos andando a passos de tartaruga e que muita, mas muita coisa mesmo deve ser melhorada. Gostaria de ver o Brasil chegar lá nas cabeças. Mas os outros países também, inclusive o Níger. O mundo seria, sem dúvida, melhor.

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Estabilidade x Lava Jato, e uma assustadora definição de um PMDB-empresa.

Em sua coluna na Valor Econômico on-line, com o título Impeachment contaminado, Marcos Nobre começa assim:

"O PMDB é uma empresa de fornecimento de apoio parlamentar, com cláusula de permanente revisão do valor do contrato. Na qualidade de maior empresa do ramo, estabelece sempre o parâmetro dos preços praticados nesse mercado. Todas as demais empresas aguardam a negociação do PMDB para a fixação do preço de seus serviços. Se quiser governar, qualquer governo está obrigado a estabelecer primeiro um acordo com o líder do cartel do sistema político."

Essa definição, apesar de assustadora, não apavora pela novidade, mas, sim, pela realidade, eis que é
o que corre a boca pequena ou a boca grande há muito tempo quando se refere ao PMDB nacional. Eu mesmo já ouvi manifestações parecidas em palestras, discussões ou debates, na TV e ao vivo. O PMDB nacional está ali, dividido, fracionado, com vários caciques e suas tribos, e, diferentemente de alguns outros partidos, sem um objetivo único da porta para fora.

O articulista Marcos Nobre ainda traz uma interessante perspectiva de como a presidente Dilma Rousseff se mantém no cargo graças, por mais paradoxal que possa parecer, segundo ele próprio diz, à Operação Lava Jato e de como o impeachment pode, eventualmente, atrapalhar ums possível estabilidade alcançável por outros meios.

O panorama é um tanto sombrio. Algo do tipo, se ficar o bicho pega, se correr o bicho come. Nenhuma novidade aqui, também, mas refletir é sempre bom...

Leia a íntegra do artigo de Marcos Nobre na página da Valor Econômico clicando aqui.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Eles somos nós.

Assunto batido e, de tão batido, já meio aborrecido, chatinho. Ainda não me saiu do entendimento que os políticos eleitos são puro reflexo dos seus eleitores. Ou seja, os governantes e legisladores são, de fato, o povo. Se o povo se vende para votar nesse ou naquele, como exigir que eles não se vendam lá para votar assim ou assado? 

Ah, por isso existe o bolsa-família! Para manter no governo quem já ocupa as principais cadeiras. Bom se fosse este nosso único problema. Jogar a responsabilidade para as classes mais pobres ou menos favorecidas é tampar o sol com a peneira. Quem nunca ouviu de algum amigo bem situado ou academicamente esclarecido que votaria nesse ou naquele por algum motivo que não um bom projeto político? Pois é! Eles estão lá por nossa causa, seja qual for a causa.

Infelizmente, é difícil ver uma luz no fundo do túnel que não seja o trem vindo ao contrário. Porém não se pode esmorecer. Resposta tão chatinha quanto o problema: educação com qualidade e investimento maciço na formação das crianças e jovens. 

Senão, meus caros, as árveres somo nozes!

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Dilma e Collor ou Collor e Dilma: quem vai perder, todos nós já sabemos...

Eu fui um dos cara-pintadas lá nos idos de 1992, a caminhar pela Avenida Beira-mar de Florianópolis, entre a UFSC e a Catedral Metropolitana. Sim, eu fui. Só não pintei a cara, mas estava todo de preto num calor dos infernos. Foi bonito ver aquele povo todo se unindo em prol de uma causa, e com a esperança de que as coisas realmente mudassem. E mudaram. Já chego lá. Tempos depois me senti meio usado como massa de manobra (e não me entendam mal, mas Karl Marx já dizia, lá em 1800 e alguma coisa, que a opinião pública é a opinião da classe dominante desse povo. Parece-me que faz algum sentido, embora o prisma dele tenha sido revolucionário e o meu, agora, meramente observatório).

Voltando. Collor na berlinda. Muitas acusações e suspeitas, nem tantos elementos concretos. Outros tempos, sem internet, sem celulares, sem whatsapp. O caçador de marajás estava na alça de mira. Se do povo indignado ou dos políticos ou empresários contrariados, bem, cada um com suas conclusões. O fato é que o homem sofreu o impeachment e anos depois, renovado, tatuado e com alguns super-carros na garagem (tudo bem, ele nega que foram comprados com dinheiro de propina), posa de senador da República.

As coisas mudaram. Nesse meio tempo um sociólogo e um metalúrgico assumiram o poder. O primeiro esqueceu o que escreveu (ou pediram para que esquecessem) e o segundo esqueceu o que era ser pobre (fiquemos só com o Romanée Conti 1997 que bebeu com seu marqueteiro em 2002; não quero nem entrar na discussão das fortunas que dizem por aí). E agora como presidente temos Dilma Rousseff, a senhora dos ventos, ou senhora mandioca, ou o substantivo que vocês quiserem utilizar para adjetivar a chefe do executivo federal. Imagino, eu, que a pressão que ela deve estar sofrendo é algo inimaginável para nós, meros seres humanos mortais. Isso, com uma possível batelada de remédios tarja mais que pretas, é o que pode justificar esses desvarios de eloquência. Virou piada, infelizmente. Quando o maior mandatário do país vira piada, paradoxalmente temos que chorar, e não rir.

Mas as coisas mudaram, mesmo. Antes o instituto do impeachment foi utilizado como uma bandeira democrática pelo PT contra o corrupto Collor da Elba. Hoje o PT defende que é golpe utilizarem-se deste remédio contra um governo eleito democraticamente (ué? O do Collor não foi? - também não quero entrar na seara da sacanagem que a Globo fez com a edição do último debate entre Collor e Lula), não obstante as cifras bilionárias que aparecem a cada dia. E para demonstrar o quanto as coisas incrivelmente podem mudar, quem está do lado do PT tentando salvar a pele da presidente?: ele, o presidente impedido, Collor de Mello.

É, o mundo dá voltas. É redondo (apesar de eu ter descoberto recentemente que nem redondo é).

Bom, a questão é que o paladino da justiça (??!!), Eduardo Cunha, tecnicamente (ah, vá!) entendeu que a abertura do processo poderia se dar. Prerrogativa dele. Vamos ver o que seus pares dizem, até porque dois outros caciques paladinos da moralidade (??!!), embora da outra casa, estão com discursos divergentes, os nobres Jader Barbalho e Renan Calheiros.

Quem vai ganhar essa queda de braço, não sei. Quem vai perder, todos nós já sabemos...

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Os ciclistas e suas máquinas maravilhosas.

Os ciclistas, ah, os ciclistas. Assim como motoristas, motociclistas e pedestres, há ciclistas de todos os tipos e naipes. Inclusive idiotas. O que dizer, por exemplo, dos ciclistas que conseguem andar do outro lado da rua, na contramão, com uma ciclofaixa lá berrante e berrando para que passem sobre ela continuamente? Ou mesmo uma ciclovia, ainda mais segura?

Por que alguns ciclistas teimam em se sobrepor às regras e achar que riscos são apenas para os outros? E com isso, arriscam, também, a vida de quem nada a ver tem com a história. Presenciei, poucos anos atrás, um ciclista que bateu num veículo que estava, vagarosamente diga-se, entrando na via principal de mão única, e ainda ficou xingando o motorista. O detalhe que não me escapou: havia uma ciclofaixa respeitável do outro lado da rua. Pior foram outros transeuntes, desinformados, tomando as dores do dolorido ciclista irresponsável. E muitos exemplos eu poderia dar aqui, assim como cada um dos leitores.

Que não me venham, também, com a ladainha de que não há ciclofaixas na cidade inteira. Desafio qualquer um a me provar que exista algum município do mundo nesta condição. Nos cruzamentos mais perigosos, a atenção deve ser de todos, não apenas dos motoristas. Aprendi, desde cedo, já que meus pais me ensinaram, que entre um automóvel e eu, num choque, quem vai levar a pior sou eu (a não ser que eu seja aquele menino que o carro passou por cima e ele ficou com apenas alguns arranhões, outro dia). De bicicleta a mesma coisa. De moto provavelmente a mesma coisa também. O velho ditado “quem tem, tem medo” cabe muito bem aqui.

Não que não haja motoristas desatentos ou desrespeitosos. Há, sim, e muitos. Semana passada falei um pouco de algumas espécies deles. Mas por uma questão de instinto de sobrevivência, cautela e canja de galinha não fazem mal a ninguém.

De todo modo, está lá na lei: Nas vias urbanas e nas rurais de pista dupla, a circulação de bicicletas deverá ocorrer, quando não houver ciclovia, ciclofaixa, ou acostamento, ou quando não for possível a utilização destes, nos bordos da pista de rolamento, no mesmo sentido de circulação regulamentado para a via, com preferência sobre os veículos automotores. No mesmo sentido. Se todos seguirem a lei, sustos e acidentes provavelmente diminuirão. Ademais, todos são responsáveis por todos para a segurança do trânsito.

Já andei muito de bicicleta, e hoje ando mais de carro do que a pé. Vivenciei todos os lados, e sei que o melhor é que respeitemos as leis e os outros e que prestemos a atenção necessária sempre. Do contrário muitos ossos e vidas serão perdidos.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

A volta dos que não foram: os idiotas.

Pois é. Sai ano, entra ano, e aqueles que nós gostaríamos que não voltassem mais, na realidade, nem saíram muito de perto. Os idiotas, que, em outros tempos, nada longínquos, eu chamava de "seres". Como fineza não é das minhas maiores qualidades, infelizmente, posso passar por mal educado, estúpido, grosseiro (posso não, passo muitas vezes).

Mas a intenção é boa. Algo como aquela invencionice de "inveja boa" ou "inveja branca". Ué, inveja não é pecado? Capital, ainda por cima!! Invejou, vai frequentar um dos círculos do inferno. Na realidade, segundo Dante (o Alighieri, não o zagueiro do Bayern de Munique), em a Divina Comédia, os invejosos não vão bem pro inferno; vão pro purgatório, mais exatamente no seu segundo círculo. Na realidade, não sei o que é pior: o inferno ou o purgatório, embora digam que neste ainda há esperança. E aqui sou obrigado a relembrar Nietzsche, que dizia que "a esperança é o pior dos males, pois prolonga o sofrimento do homem" ou algo assim. E com sumidades como estas eu não discuto. Na realidade, ultimamente também não tenho discutido com imbecis e idiotas. Pura perda de tempo.

De todo modo, não preciso me preocupar. Acredito que minha passagem para o inferno está garantida, e direto pro sexto círculo. Isso se eu não parar no tal do ante-inferno, local onde ficam as almas recusadas tanto por deus quanto pelo diabo. A vantagem se eu for para o inferno é que, provavelmente, muitos dos meus amigos estarão ali pelos círculos vizinhos, e espero conseguir dar uma passeada com boa frequência no segundo e no oitavo. Mas queria mesmo é ir pro sétimo do purgatório Seria, no mínimo, divertido. Outra vantagem é que se eu estiver certo, não vou pro sexto círculo do inferno, nem pra círculo nenhum, pois não existiriam. Vou ter que esperar para saber, ou não saber (mais provável).

Gosto de Dante e de Nietzsche. Foi bom lembrar deles nesse texto. Devem estar contentes comigo lá nos círculos infernais. Mas não era deles que queria falar quando comecei a escrever hoje. Era dos idiotas (falando nisso, não lembro dos idiotas em círculo algum; devem ficar também no ante-inferno - que droga, já não posso mais ir pra lá).

Hoje falo dos tais motoristas que acham que pisca-alerta transforma seu veículo em avião da Mulher-Maravilha, aquele invisível (e que nunca entendi como ela - e só ela - encontrava). Sei, sei, amigo leitor, entediado leitor, que já assuntei isso por aqui mais de uma vez. Porém, se eu pudesse, juro que explodia cada carro que visse parado na ciclofaixa "só pra apanhar alguém rapidinho", "só pra descarregar rapidinho", "só pra esperar o nosso lindo balão azul sair detrás de uma nebulosa rapidinho". Agora também, os aviões da Mulher-Maravilha, com seus mágicos dispositivos pisca-alerta, estão tomando conta do estacionamento rotativo. Ou então é um código não escrito que se traduz em "não me multe, estou com o pisca-alerta ligado e você não está vendo meu carro porque se transformou num avião invisível e eu sou a Mulher-Maravilha de barba e calça mostrando a bunda porque estou disfarçada para o Super-Homem não saber que vou rapidinho nessa loja aqui na frente". Talvez, sei lá, pode ser isso.

Eu deveria falar também de outros tipos de idiotas: aquele que pensa que acostamento é terceira pista, ou aquele que não respeita a fila de veículos pra furá-la lá na frente porque é mais esperto que todo mundo. Mas começa a me dar urticária só de lembrar. Por hoje chega. Semana que vem quero ver se lembro de tratar dos ciclistas e dos pedestres.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Contra um mundo melhor.

Li um livro interessante este final de ano. Contra um mundo melhor - ensaios do afeto (editora LeYa, 1a ed.), do filósofo brasileiro Luiz Felipe Pondé. Instigante, provocante e, o pior, com muitas coisas que eu concordo. Como gostei, vou compartilhar alguns pensamentos com meus leitores hoje e outros ao longo da vida. Tem coisa contundente. Concordo com algumas. Mas não se levem tão a sério. Nem quando a carapuça servir, ok?

"O que nos humaniza é o fracasso, homens e mulheres muito felizes não são homens e mulheres. Tenho medo de pessoas muito felizes. A consciência trágica, seja ela cósmica, seja miserável miúda e cotidiana, determina o horizonte onde se move o humano."

Eu tenho medo de pessoas lineares (que nunca se alteram, comedidas demais) e das que querem parecer muito certinhas.

"Segundo alguns sábios, a preguiça seria uma espécie de ceticismo da matéria, do corpo."

Aqui entre nós: é o segundo melhor dos pecados, né? Principalmente domingo de manhã com chuva.

"Todos são preocupados em construir um mundo melhor e suas carreiras profissionais. E como quase todas são pessoas feias, fracas e pobres, sem ideias e sem espírito inquieto, nada nelas brota de grandioso, corajoso ou humilde."

E o melhor:

"O grande escritor pernambucano Nelson Rodrigues costumava falar que vivemos numa época dominada pelos idiotas. Quem são esses idiotas? Como reconhecê-los? O que eles costumam falar? Antes de tudo, eles são maioria esmagadora e, como a democracia é um regime fundamentado na maioria, são vencedores pela simples força numérica. A luta contra os idiotas é uma batalha perdida. Falam demais. Acreditam que, apenas porque têm boca, podem emitir opiniões sobre tudo. Como viraram engenheiros e médicos e professores, porque o "conhecimento" virou ferramenta de ascensão social, hoje os idiotas têm diplomas."

Oh vida cruel...

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Justiça tributária: como atrapalhar o funcionamento do Judiciário.

Texto de Raul Haidar no Portal Conjur:

Todos nós desejamos um sistema tributário de boa qualidade. Quando nos vemos diante de algum problema que dependa de solução jurídica, queremos aquilo que se chama Justiça Tributária.

Mas, infelizmente, tudo indica que há pessoas, instituições ou mecanismos legais que atuam em sentido contrário, seja incentivando a criação de problemas que não deveriam existir, seja impedindo que as possíveis soluções para eles possam ser encontradas e mesmo evitando que elas sejam colocadas em prática, ainda que óbvias, claras e simples.

Segundo divulgado pelo CNJ (Conselho Nacional de Justiça), no final de 2010 havia mais de 83 milhões de processos em tramitação no Judiciário do país. Desse total, pelo menos 32% seriam execuções fiscais, ou seja, cerca de 27 milhões de processos.

O número é expressivo, mas poderia diminuir bastante se fossem afastados os mecanismos já disponíveis nesse setor (execuções fiscais) e que não são acionados pelo Judiciário por simples acomodação ou mesmo desídia de seus dirigentes ou, talvez, por desinformação de alguns magistrados.

O primeiro e surpreendente caso que permitiria reduzir os processos, relaciona-se com uma enorme quantidade de créditos fiscais alcançados pela prescrição quinquenal.

A pretexto de defender o tal “interesse público”, tais ações permanecem indefinidamente ocupando espaço, até que o contribuinte, pressionado pelos odiosos mecanismos de controle de crédito, acaba sucumbindo e paga o que não deveria ser pago, porque extinto.

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