O texto dado a meus alunos na noite desta quarta-feira, para que fizessem um resenha crítica, tratava da compra e venda de órgãos. O autor (Hélio Schwartzman) provoca o leitor com a discussão do dilema justiça/injustiça de um mercado de órgãos humanos. A grande questão é: se podemos doar (dar) um órgão, por que não podemos vendê-lo? Ou seja, é justa, é ética e é válida uma norma que proíba que eu possa vender aquilo que eu posso dar?
As discussões vão por vários caminhos, desde os mais esdrúxulos, como o aumento dos assassinatos para vender os órgãos dos outros (imaginando-se hospitais aceitando qualquer órgão sem exames ou origem no balcão pré-cirúrgico) até os mais factíveis, como o privilégio dos endinheirados nas filas de transplante.
Lembro de um aluno único, em várias turmas que já apliquei esse texto, ter sido absolutamente sincero em defender seu egoísmo ao dizer que só venderia seus órgãos, e jamais doaria, pois, entre outros argumentos, se o médico ganha pelo transplante, por que ele também não poderia ganhar?
Não vou entrar no mérito deste assunto, o debate é longo. Há argumentos para os dois lados - sensatos, frise-se - e eu já tenho minha convicção sobre o tema.
É que o fato me fez lembrar de um episódio do CSI (aquele seriado americano com a polícia técnica que todos gostariam de ter, cujos crimes são sempre desvendados). Houve uma morte em um avião, e a versão de todas as testemunhas não era conclusiva. Resumindo a história, o cidadão assassinado, por conta de uma doença, perdeu o controle e, entre outras coisas, tentou abrir a porta do avião. Os demais passageiros, assustados, por óbvio, o retiraram da porta e, aos trancos, jogaram-no no chão. Como a vítima já tinha causado diversos problemas no vôo, as pessoas perderam a cabeça e, pelo desespero, acabaram matando-a.
Dessa vez o chefe da polícia entendeu que as provas eram fracas para acusar pessoas de bem (ninguém dos passageiros tinha qualquer mancha policial) e liberou todos. Uma das policiais, já no departamento, inconformada com o resultado, disse que deveriam todos ser presos e condenados. Outra disse que se alguém colocasse em risco a vida de sua filha (no avião também havia uma mãe com sua filha) poderia fazer coisas piores. Um terceiro falou que para salvar a própria vida os crimes são justificáveis.
É a mesma linha de raciocínio da venda de órgãos. Tudo vai depender de coisas tão subjetivas, que há inúmeras opiniões sobre o assunto. Podemos jogar essa visão para praticamente todos os assuntos polêmicos que nos cercam. E outros nem tão polêmicos assim.
O jurista Miguel Reale nos dá um norte para tais dilemas: colocarmo-nos no lugar do outro.
Fica como sugestão a leitura do livro O caso dos exploradores de caverna, de Lon Fuller.
Bacafá
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quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010
sexta-feira, 22 de janeiro de 2010
Repergunta (Deus e a terra).
Já fiz indagações desta natureza aqui, e cotidianamente reflito sobre isso, em especial quando provocado ou quando ocorrem tragédias das proporções desta no Haiti. Por isso trago trechos do texto de Hélio Schwartsman para compartilhar com os leitores do blog:
"Grandes catástrofes naturais como a que se abateu sobre o Haiti constituem uma espécie de experimento teológico natural. Não é necessário PhD em filosofia para colocar-se a pergunta que não quer calar: se existe um Deus onisciente, onipotente e benevolente, como ele pôde produzir --ou pelo menos permitir-- tanto sofrimento?
O problema da teodiceia, que assombra os filósofos há séculos, já foi aplicado a movimentos de placas tectônicas. Em fins do século 18, época em que o hoje miserável Haiti ainda era a "pérola das Antilhas", a mais rica colônia do Novo Mundo, Voltaire e Rousseau se engalfinhavam na célebre polêmica do terremoto de Lisboa, que já explorei em outras colunas, mas retomo aqui para que a tragédia haitiana pelo menos nos forneça material de reflexão.
Em 1755, mais precisamente às 9h40 do dia 1º de novembro, um grande sismo atingiu a cidade de Lisboa, então a quarta maior da Europa. Era Dia de Todos os Santos e, por isso, a maioria dos moradores estava na missa. Muitos morreram sob os escombros de igrejas que ruíram. As áreas baixas da cidade foram rapidamente engolidas por ondas gigantescas. Como se não bastasse, seguiu-se um terrível incêndio, que destruiu boa parte do que havia sido poupado pelo tremor. O fogo durou seis dias. O total de mortos ficou entre 30 mil e 70 mil.
Além dos alicerces de Lisboa esse megassismo fez tremer o fervilhante mundo intelectual do século 18. Vinte e três dias após a tragédia, Voltaire, o pseudônimo de François-Marie Arouet (1694-1778), publicou seu "Poema sobre o Desastre de Lisboa", cujo subtítulo é: "ou o exame do axioma: 'tudo está bem'". De seus versos emerge uma boa dose de indignação: "É preciso dizer: o mal está na terra:/ Seu princípio secreto é desconhecido/ Do autor de todo bem terá ele partido?".
Com efeito, a contradição entre a ideia de um bem absoluto e o mal visível é conhecida desde a Antiguidade. Atribui-se a Epicuro o seguinte dilema: Se Deus é bom e onipotente, não poderia haver mal sobre a Terra; havendo, ou Deus não quer acabar com o mal --e não é benevolente-- ou não pode fazê-lo --e não é onipotente."
Leia o artigo na íntegra aqui.
"Grandes catástrofes naturais como a que se abateu sobre o Haiti constituem uma espécie de experimento teológico natural. Não é necessário PhD em filosofia para colocar-se a pergunta que não quer calar: se existe um Deus onisciente, onipotente e benevolente, como ele pôde produzir --ou pelo menos permitir-- tanto sofrimento?
O problema da teodiceia, que assombra os filósofos há séculos, já foi aplicado a movimentos de placas tectônicas. Em fins do século 18, época em que o hoje miserável Haiti ainda era a "pérola das Antilhas", a mais rica colônia do Novo Mundo, Voltaire e Rousseau se engalfinhavam na célebre polêmica do terremoto de Lisboa, que já explorei em outras colunas, mas retomo aqui para que a tragédia haitiana pelo menos nos forneça material de reflexão.
Em 1755, mais precisamente às 9h40 do dia 1º de novembro, um grande sismo atingiu a cidade de Lisboa, então a quarta maior da Europa. Era Dia de Todos os Santos e, por isso, a maioria dos moradores estava na missa. Muitos morreram sob os escombros de igrejas que ruíram. As áreas baixas da cidade foram rapidamente engolidas por ondas gigantescas. Como se não bastasse, seguiu-se um terrível incêndio, que destruiu boa parte do que havia sido poupado pelo tremor. O fogo durou seis dias. O total de mortos ficou entre 30 mil e 70 mil.
Além dos alicerces de Lisboa esse megassismo fez tremer o fervilhante mundo intelectual do século 18. Vinte e três dias após a tragédia, Voltaire, o pseudônimo de François-Marie Arouet (1694-1778), publicou seu "Poema sobre o Desastre de Lisboa", cujo subtítulo é: "ou o exame do axioma: 'tudo está bem'". De seus versos emerge uma boa dose de indignação: "É preciso dizer: o mal está na terra:/ Seu princípio secreto é desconhecido/ Do autor de todo bem terá ele partido?".
Com efeito, a contradição entre a ideia de um bem absoluto e o mal visível é conhecida desde a Antiguidade. Atribui-se a Epicuro o seguinte dilema: Se Deus é bom e onipotente, não poderia haver mal sobre a Terra; havendo, ou Deus não quer acabar com o mal --e não é benevolente-- ou não pode fazê-lo --e não é onipotente."
Leia o artigo na íntegra aqui.
quinta-feira, 30 de julho de 2009
Deus e o jardim das delícias.
"Ou bem Deus existe e espera de nós atitudes exóticas como comer o corpo de seu filho unigênito ou o problema está em nós, mais especificamente em nossos cérebros, que fazem coisas estranhas quando operam no modo religioso. Fico com a segunda hipótese. Antes de desenvolvê-la, porém, acho oportuno lembrar que a própria pluralidade de tabus ritualísticos depõe contra a noção de Verdade religiosa."
Trecho do artigo Deus e o jardim das delícias, de Hélio Schwartsman.
Para ler o texto completo, clique aqui.
Trecho do artigo Deus e o jardim das delícias, de Hélio Schwartsman.
Para ler o texto completo, clique aqui.
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