Bacafá

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quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Idiossincrasias.

O texto dado a meus alunos na noite desta quarta-feira, para que fizessem um resenha crítica, tratava da compra e venda de órgãos. O autor (Hélio Schwartzman) provoca o leitor com a discussão do dilema justiça/injustiça de um mercado de órgãos humanos. A grande questão é: se podemos doar (dar) um órgão, por que não podemos vendê-lo? Ou seja, é justa, é ética e é válida uma norma que proíba que eu possa vender aquilo que eu posso dar?

As discussões vão por vários caminhos, desde os mais esdrúxulos, como o aumento dos assassinatos para vender os órgãos dos outros (imaginando-se hospitais aceitando qualquer órgão sem exames ou origem no balcão pré-cirúrgico) até os mais factíveis, como o privilégio dos endinheirados nas filas de transplante.

Lembro de um aluno único, em várias turmas que já apliquei esse texto, ter sido absolutamente sincero em defender seu egoísmo ao dizer que só venderia seus órgãos, e jamais doaria, pois, entre outros argumentos, se o médico ganha pelo transplante, por que ele também não poderia ganhar?

Não vou entrar no mérito deste assunto, o debate é longo. Há argumentos para os dois lados - sensatos, frise-se - e eu já tenho minha convicção sobre o tema.

É que o fato me fez lembrar de um episódio do CSI (aquele seriado americano com a polícia técnica que todos gostariam de ter, cujos crimes são sempre desvendados). Houve uma morte em um avião, e a versão de todas as testemunhas não era conclusiva. Resumindo a história, o cidadão assassinado, por conta de uma doença, perdeu o controle e, entre outras coisas, tentou abrir a porta do avião. Os demais passageiros, assustados, por óbvio, o retiraram da porta e, aos trancos, jogaram-no no chão. Como a vítima já tinha causado diversos problemas no vôo, as pessoas perderam a cabeça e, pelo desespero, acabaram matando-a.

Dessa vez o chefe da polícia entendeu que as provas eram fracas para acusar pessoas de bem (ninguém dos passageiros tinha qualquer mancha policial) e liberou todos. Uma das policiais, já no departamento, inconformada com o resultado, disse que deveriam todos ser presos e condenados. Outra disse que se alguém colocasse em risco a vida de sua filha (no avião também havia uma mãe com sua filha) poderia fazer coisas piores. Um terceiro falou que para salvar a própria vida os crimes são justificáveis.

É a mesma linha de raciocínio da venda de órgãos. Tudo vai depender de coisas tão subjetivas, que há inúmeras opiniões sobre o assunto. Podemos jogar essa visão para praticamente todos os assuntos polêmicos que nos cercam. E outros nem tão polêmicos assim.

O jurista Miguel Reale nos dá um norte para tais dilemas: colocarmo-nos no lugar do outro.

Fica como sugestão a leitura do livro O caso dos exploradores de caverna, de Lon Fuller.

2 comentários:

GeekCats disse...

Esse tipo de texto é ótimo para aplicar em salas de aula.
Papai me contou que ele recebeu em sala de aula um texto que contava um assassinato realizado por um serial Killer. O texto era tão bem montado e o professor em aula tão manipulador que ao final um grupo de alunos (a maioria) simplesmente dizia que a culpa era da vítima! E que o Serial Killer estava fazendo apenas o seu "trabalho".

Outro texto semelhante era sobre a ética e moral em testes de medicamentos em pessoas condenadas a morte.

Bruna disse...

Eis mais um tema interessante!
Eu gosto disso porque tenho mania de fazer um exercício "mental" que é um "debate interno".

Crio argumentos para os dois lados e tento convencer a mim mesma!

Loucura?
Não sei. Mas a vantagem é que EU, de uma forma ou de outra, sempre acabo a vencedora de tais debates! kkkk