Bacafá

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domingo, 12 de abril de 2009

Ensaio sobre a cegueira

Terminei, sexta-feira, a leitura do livro de José Saramago. Vi o filme no sábado. O filme é bom, mas incomparável ao livro. Os detalhes do livro, as discussões, as reflexões não são possíveis de passar ao filme, sob pena de termos uma película arrastada de três horas ou mais.

De todo modo, o livro é contundente. Um soco. A questão não é a improvável situação de todos ficarmos cegos de uma hora pra outra, mas o quanto somos cegos no dia a dia. E o quanto seríamos cegos dentro de circunstâncias violentas e inesperadas.

É o livro que se fecha, na última página, e ainda se fica pensando algum tempo, alguns dias, talvez algumas semanas sobre a história. Deglutindo e refletindo.

Lembrou A estrada, de Cormac, que já falei aqui. Só lembrou porque o li antes; penso que Cormac usou alguns elementos desse livro de Saramago. Pode ser só impressão minha, mas, para ficar no exemplo mais simples, os personagens não têm nomes. As discussões também tem muitos pontos em comum. Vale a pena ler os dois. Quem quiser ler meu comentário sobre A estrada, clique ali em cima no nome do livro.
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"... se antes de cada actro nos puséssemos a prever todas as consequências dele, a pensar nelas a sério, primeiro as imediatas, depois as prováveis, depois as possíveis, depois as imagináveis, não chegaríamos sequer a mover-nos de onde o primeiro pensamento nos tivesse feito parar. Os bons e os maus resultados dos nossos ditos e obras vão-se distribuindo, supõe-se que de uma forma bastante uniforme e equilibrada, por todos os dias do futuro, incluindo aqueles, infindáveis, em que já cá não estaremos para poder comprová-lo, para congratular-nos ou pedir perdão, aliás, há quem diga que isso é que é a imortalidade de que tanto se fala."

4 comentários:

Ninguém envolvente disse...

Assisti ao filme este fim de semana. Nunca li o livro e nenhuma outra obra de Saramago, mas achei que o filme deixou muito a desejar. A história em si me pareceu meio batida, meio nada a ver. Fiquei muito decepcionada com o filme, por ser uma obra tão comentada e todo mundo que assistiu me falou super bem do filme e eu não consegui ver nada além de senso comum e coisa óbvia sobre a tal cegueira.
Nem precisava de uma obra dessa para falar sobre essa óbvia cegueira. Em fim, não gostei do filme e por este motivo não me entusiasmo em ler a o livro, eu tinha criado muita expecitativa, achei que seria uma coisa inovadora, uma boa lição de moral, que fosse mesmo "abrir os olhos " e mudar minha visão de mundo, mas infelizmente achei um filme pobre e ridículo.
Aliás faz tempo que não assisto um bom filme.
Outro filme que veio de livro e também me decepcionou, foi o caçador de pipas! Achei um lixo também. Bom, na verdade eu tenho um mega problema com filmes, eu já pego a história toda nos primeiros 20 minutos de filme, ai ja consigo saber o final e por isso fico P da vida. Talvez eu deva fazer como você, ler o livro antes ;)

Janaína Elias Chiaradia disse...

Concordo plenamente...também não gostei da história...assisti o filme, não li o livro, e me decepcionei com a trama. Mas enfim, gosto não se discute.

Raphael Rocha Lopes disse...

Ninguém, percebi que quem não leu o livro achou que o filme deixou a desejar. Talvez essa seja a falha do filme, mesmo. A expectativa criada em cima dele frustra um pouco. Eu li o livro e também esperava mais, mas ainda assim gostei do filme. Entretanto, mesmo sendo repetitivo, recomendo o livro. Gostei muito.

Jana, já conversamos sobre isso. A história choca mesmo. Penso, ainda, que daqui um tempo você deveria lê-lo. E olha que a sua companhia pra ver esse filme não poderia ser melhor, hehe.

Fred! disse...

Li o livro e vi o filme, nesta ordem. Sem dúvida, o filme não conseguiu transpor para a tela o inteiro conteúdo do livre, mas apresentou o cerne da questão de forma muito clara. Em determinados pontos, achei que o filme até foi muito bem (como é o caso do caos se instalando no governo e no mundo, sendo mostrado na televisão). Quanto a história em si, creio que o olhar de alguns não atingiu a profundidade do livro. Não é apenas uma história de cegueira, como bem disse o Raphael, mas de como a natureza do ser humano mostra seu pior e melhor lado em casos extremos. É muito fácil mostrar pessoas brigando pela vida, presos em uma ilha deserta, mas criar uma prisão dentro de si mesmo, como fez Saramago, é para poucos. Recomendo a leitura do livro, desta vez com a mente aberta, "degustando" os dialogos e situações criadas, e sem tentar adivinhar o final...