Bacafá

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domingo, 2 de novembro de 2008

Visões de uma aula chata

Achei esse texto perdido numas anotações velhas. Deve ser lá de 1990 ou 1991...

Visões de uma aula chata.

Professor falando.
Gente conversando; gente roendo unha; gente olhando para fora da sala de aula; gente furungando espinha no rosto; gente furungando espinha no braço. Mais gente conversando. Uma menina prestando atenção na aula; outra menina prestando atenção.
O professor continua falando.
Gente coçando a cabeça; gente lendo “A Revolução dos Bichos”; outra gente lendo “A Revolução dos Bichos”; gente lendo George Orwell; gente lendo outros livros; gente escrevendo. Mais gente conversando; gente olhando o chão; gente olhando o teto; gente olhando o nada.
O professor continua falando.
Gente saindo da sala; gente desenhando; gente mexendo na pasta; gente lendo revista; gente olhando para trás; gente mostrando agenda nova; gente rindo; gente parada; gente com a mão na boca; gente com a mão no cabelo; gente com a mão na testa.
- A aula acabou? – alguém pergunta.
Não, a aula não acabou. Mais aula. Mais professor falando.
Mais gente conversando; gente penteando o cabelo; gente mascando chiclete; gente chupando bala; gente se olhando no espelho; gente brincando de jogo da velha; gente bocejando; gente quase dormindo; gente dormindo; gente fazendo careta. Mais gente rindo; mais gente conversando. Gente com caneta na boca; gente com lápis na boca; gente com a boca aberta.
O professor continua falando.
Gente amassando papel; mais gente de boca aberta; gente balançando a perna; gente batendo o pé; mais gente saindo; mais gente bocejando. Gente brincando com os óculos; gente no mundo da lua; gente guardando o material.
Bateu o sinal. Finalmente a aula acabou. Toda a gente foi embora.
E o professor continua falando.

2 comentários:

Janaína E. Chiaradia disse...

Situação complicada...mas real...divertida de se ler após de alguns anos, porém, constrangedora e chata no momento em que se vive...o tempo passa, os papéis se invertem, e a esperança persiste em transformar as salas de aulas em uma troca de experiência de mútuos interesses.

Klaus Franzner disse...

O autor ainda nao conhece a 6ª fase de Direito Noturno da Unerj, aonde isso jamais acontece.