Bacafá

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quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Contos de quinta (verão): O corredor.

Todos os dias ele corria na areia. Acordava cedo, fazia um desjejum leve, preparava o par de tênis, e ia para a praia. Quando chegava o silêncio era quase absoluto, quebrado apenas pelas ondas do mar e um ou outro grito dos pescadores adiante. Normalmente, nem o sol estava totalmente despontado. O maral fazia-o franzir de vez em quando, assim como o suor correndo pelas têmporas.

A maresia, meio gosto, meio cheiro, era um de seus estimulantes. Seu ritmo sempre era constante, e para isso corria sempre na parte dura da areia, tentando evitar a água que às vezes procurava beliscá-lo. Mas não se importava com os respingos que lhe alcançavam.

Não falhava um dia. Poderia ser feriado, final de semana, estar quente, frio ou chovendo. Poderia até ter tomado um porre na noite anterior, lá estava ele correndo na manhã seguinte. Todos se espantavam com seu empenho, sua dedicação, sua vontade. Os anos passavam, e lá estava ele correndo cedo na praia. Até os pescadores conheciam o corredor.

A inspiração maior, porém, e que não se sabe se mais alguém sabia, mais do que a maresia, mais do que o sorriso das pessoas pelas quais passava, mais do que a pele bronzeada, mais do que o físico em dia, mais do que o visual maravilhoso daquela praia, mais do que qualquer argumento sobre os benefícios deste tipo de atividade, era ela.

Assim como ele corria todas as manhãs, todas as manhãs estava ela sentada num banco incrustado nas pedras no fim da praia. Algumas vezes protegida pela sombra das árvores, outras pela brisa do mar. Todas as manhãs.

Não, não se perceberam imediatamente, como nos contos de fadas. Foram algumas corridas até os olhares se cruzarem, outras tantas para os sorrisos se abrirem. E mais um bom tempo para sentimentos mais fortes aparecerem. Agora essa era a diária e matinal motivação dele. Seu coração cedo já acelerava ao pisar seus pés calçados na areia. O dia anterior poderia ter sido um caos. A noite uma tragédia. Tudo sumia, tudo era sublevado quando dava o primeiro passo da corrida. O mundo parava por aqueles diários e ritmados seis quilômetros e meio de corrida até as pedras da ponta.

Dia após dia, semana após semana, mês após mês, ano após ano. Não falhavam as trocas de olhares, não falhavam os sorrisos largos, sinceros e apaixonados; ela sentada sempre no mesmo lugar aguardando sua chegada, ele correndo sempre em sua direção. Só lhes falta coragem.

2 comentários:

Daiane Meurer disse...

Putz... CORAGEM!!!

Ah, será que ele corria tanto, sem variar, para fugir de alguma coisa???


Unknown disse...

Um conto muito bem contado!
Gostei!