Bacafá

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quinta-feira, 22 de julho de 2010

Contos de quinta: O livro.

O livro.

Tropecei nele quando estava terminando de atravessar a rua. Correndo, como sempre. Mas por causa da chuva dessa vez. Desviei de uma poça e acabei chutando-o antes de dar meu último passo para a calçada. Parei no meio-fio e fiquei olhando para aquele objeto, apesar da chuva. Um livro. Capa marrom, páginas amareladas e um pouco amassadas. O paletó estava ficando molhado e eu ali parado olhando o estranho livro. Devagar me agachei e o apanhei. Sacudi-o um pouco para tirar o excesso de água. Entrei, não sei por que e nem como, na primeira lanchonete que vi.

Fui ao banheiro, olhei-me no espelho, enxuguei o rosto, arrumei o que deu o cabelo. Já à mesa, fiz meu pedido: um chocolate quente e um pedaço de torta de morango.

Antes da garçonete trazer o que pedi abri o livro e o folheei rapidamente. Reparei que parecia mais um diário do que um livro propriamente dito. Voltei à primeira página, em branco. Na segunda, apenas um número ao centro, que me parecia uma data: 7.7.77. Uma familiar data, a data do meu nascimento. Obviamente esta coincidência aguçou minha curiosidade. A moça colocou a taça de chocolate quente e o prato com o bolo na minha mesa. Agradeci e ela retribuiu com um belo sorriso de dentes alvos e lábios bem vermelhos. Seus cabelos castanhos claros e encaracolados davam um ar noir a seus traços finos e pele clara, embora não fria. Sorri de volta e ela retornou ao balcão olhando furtivamente para mim.

Tomei um pouco da bebida, comi o meio morango que estava em cima da fatia. Voltei ao livro, virei mais uma página. Falava de um belo sete de julho de mil novecentos e setenta e sete. O nascimento de um menino grande para quem tinha nascido prematuro. Uma data cabalística, dizia uma frase. Cabalística, pensei eu. Também nasci prematuro e acima do peso para crianças nesta situação. Esquentou um pouco, tirei o paletó e o coloquei na cadeira. A garçonete me olhou e sorriu de novo. Sorri também, meio sem jeito.

Aniversario de um ano. Absolutamente simples, sem festa com amigos, sem refrigerantes, sem doces. Apenas a criança e os pais. Sem fotos, sem registros. E a mágoa da mãe em não conseguir fazer a festa de um ano que sempre sonhou para seu primeiro filho. Nunca superou essa mágoa. As pessoas reagem diferentemente para questões como esta. A mãe dele nunca mais reagiu. Ela, que tinha vindo de família rica, não conseguiu dar uma simples festa para seu filho. Morreu meses depois. Uns dizem que de desgosto, outros dizem que de câncer.

Fiquei pensando que havia alguma coisa errada. Também passei uma infância difícil, principalmente nos primeiros anos e depois que minha mãe morreu, meses após meu primeiro aniversário. Nunca soube exatamente o motivo da morte; era meio tabu discutir isso com meu pai. E acabei me conformando com essa falta de explicação.

As páginas que se seguiram eram os anos da minha vida. Eu não acreditava no que estava lendo. A sorridente garçonete já havia trazido o segundo chocolate quente, mais quente dessa vez. De tão perto que chegou, senti seu perfume doce. Por uns instantes me desconcentrei do misterioso livro. E depois de pagar a conta e receber, em um pedaço pequeno de papel, o telefone da garçonete, que então descobri, chamava-se Isa, fui embora. Isabel, Isabela, Isabele, com um ou dois “l”, ainda não sabia.

Chegando em casa, larguei as chaves e o paletó na mesa, e deitei no sofá pra continuar a leitura do livro, já quase seco. Eu ainda estava tentando entender.

Quando cheguei na fase de adolescência fiquei tonto. Coisas que pensei que só poderiam ter acontecido comigo, pelo menos daquele jeito, estavam descritas ali por alguém que eu não conhecia. Por alguém que nasceu no mesmo dia que eu. Tudo começou a girar. Lembrei do primeiro beijo, li meu primeiro beijo!! Recordei que usava a data do meu nascimento, 7.7.77, para impressionar as mais incautas. Quantas lembranças, quantos rostos, quantas bocas. Dormi com o livro sobre o peito.

continua...

8 comentários:

jean mafra em minúsculas disse...

"puta falta de sacanagem", bicho!!! continue já!!!

Anônimo disse...

tenho que concordar com o rapaz ali de cima CONTINUA Raphael *-*
Jeniffer

Anônimo disse...

Nem vem........ quero saber o final antes de todo mundo... ok?
Sou curiosa e vc sabee disso!
Só mais um detalhe: Não fossem pelos cachos da "Isa", ela se pareceria um pouco comigo... ao menos na boca, não acha? kkk

Kauana disse...

Quando vc me contou a idéia do conto... imaginei algo muito próximo disso! Posso escrever o final? rs rs

Carina disse...

Daiane nasceu 7.7.77 A única que conheco.
Beijos!

Raphael Rocha Lopes disse...

Jean e Jeniffer, sentem que lá vem história...

Anônima, guarde a curiosidade e o convencimento, hehe...

Kau, ainda bem que não me contou, senão pareceria plágio. Mas vamos tentar um conto a dois, que tal?

Carina, é verdade. Mas não é a história dela (que, diga-se, foi a única que veio de Joinville até aqui na minha apresentação da feira do livro).

Michele P. disse...

Caraca! Gostei... Volto para conferir o resto.

Rose disse...

Que droga! Sou do tipo que leio um livro de 1000 páginas só num dia pra matar a curiosidade e você me vem com uma nesquinha dessas! Aff! Conta o resto, hoje já é sábado, dia 24. Vou espiar toda vez.rsrsrs