Bacafá

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quinta-feira, 27 de outubro de 2011

O gari feliz.

Revirando minhas anotações e escritos, reencontrei uma história um tanto quanto inusitada. Talvez incomum também.

Há muito tempo, numa noite ou madrugada, retornando para casa, eu estava chateado com muitas coisas, pensando na vida, cansado do trabalho, indignado com a falta de indignação dos outros, sopesando minha vida pessoal, enfim, com alguma espécie de tristeza, daquelas que não tem muita explicação.

Em uma bifurcação perto de casa, porém, um caminhão de coleta de lixo estava atravessado de tal forma que iluminava outra esquina como se fossem holofotes esperando o artista. E como se fosse um artista, passou pelos holofotes um gari fazendo micagens e mímicas ao som do motor do caminhão, cuja platéia se resumia ao motorista do caminhão, os outros colegas e eu, mesmo não convidado para o espetáculo.

O gari, com aquela roupa grossa laranja, em uma noite das não mais agradáveis, trabalhava com alegria. Mesmo fazendo o que normalmente consideramos o mais baixo na escala de empregos, se é que existe alguma escala. O trabalho que consiste em limpar a sujeira dos outros da cidade. O trabalho que envolve muitos riscos à saúde, a profissão que possivelmente nenhuma pessoa sonha quando criança.

E mesmo sabendo que se os garis não existissem, nossa cidade, qualquer que seja, viraria um caos, normalmente olhamos com certa repugnância ou algum desdém estes homens com os sacos fétidos de lixo dos outros nas mãos. Ao mesmo tempo que um boris casoy da vida vem arrotar sua arrogância em cadeia nacional contra estes trabalhadores, não sabemos o nome e muitas vezes não conhecemos sequer o rosto dos que recolhem os restos de nossa casa.

Aquele gari, entretanto, estava feliz. Brincando, sorrindo, fazendo seu show particular para poucos, despreocupado, pelo menos naquele momento, com qualquer índice inflacionário, com os políticos corruptos, com o caos no sistema de saúde ou com a parca aposentadoria que um dia talvez venha a receber.

Enquanto tantos por aí, em suas casas luxuosas, em seus veículos do ano, com suas roupas das mais caras grifes, encontram motivos para se aborrecer ou, contra todas as perspectivas, para ter uma vida aborrecida, pessoas simples, muitas vezes sem instrução formal, conseguem saborear a vida muito melhor. Conseguem tirar das suas experiências mais alegrias do que tristezas ou rancores. Mais pontos positivos do que reclamações.

Se pararmos para pensar o porquê de comportamentos tão dissociados, em relação aos que vivem reclamando uma das explicações mais comuns é o da ditadura da beleza e da felicidade. Todos temos que ser agradáveis, felizes e belos o tempo todo. As referências da mídia nos escravizam e não percebemos, mesmo que sejam moldadas a la fotoshop.

Muitas vezes nos esquecemos do que é verdadeiramente importante.

No final das contas, somente posso dizer que o gari feliz fez muitas das minhas preocupações sumirem instantaneamente. Arrancou-me, confesso, um sorriso e um certo constrangimento por reclamar por tão pouco. Espero lembrar do gari feliz mais vezes, ainda que não mais o veja nas noites da cidade. Espero trazê-lo na minha consciência tempo suficiente para saber que todos temos nossas preocupações, mas que pouca coisa é realmente insuperável.

Que todos nós enxerguemos o gari feliz volta e meia em nossas mentes.

Um comentário:

Ninguém envolvente disse...

é por essas e outras que as vezes tenho vergonha de mim, de certos atos, pensamentos e coisas do tipo, é possível ser feliz com pouco...