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quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Mais dO homem duplicado.

Para finalizar sobre o livro O homem duplicado, e complementando as frases de ontem, mais

algumas. Dessa vez, sobre dúvidas, angústias e covardias (ou qualquer outra coisa que o leitor entender melhor):

"Aquilo a que certa literatura preguiçosa chamou durante muito tempo de silêncio eloquente não existe, os silêncios eloquentes são apenas palavras que ficaram atravessadas na garganta, palavras engasgadas que não puderam escapar ao aperto da glote".

"é impossível não ter inimigos, que os inimigos não nascem da nossa vontade de os ter, mas do irresistível desejo que têm eles de nos terem a nós".

"As pessoas podem mudar de uma hora para outra continuando a ser as mesmas".

"o diabo não faz planos, aliás, se os homens fossem bons, ele nem existiria".




E a frase que inicia o filme e que me faz pensar que se aplica a tudo:

"O caos é uma ordem por decifrar".

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Ainda sobre O homem duplicado - e a incompetência humana.

Alguns trechos do livro (O homem duplicado, de José Saramago) que especialmente servem para pensar... (com a grafia e pontuação originais).

Sobre a incompetência humana:

"Tanto é o que precisamos de lançar culpas a algo distante quando o que nos faltou foi a coragem de encarar o que estava na nossa frente".

"Não se pode exigir a toda a gente que seja sensata, Por isso o mundo está como está,".

"Ao contrário do que julga o senso comum, as coisas da vontade nunca são simples, o que é simples é a indecisão, a incerteza, a irresolução".

"O melhor caminho para uma desculpabilização universal é chegar à conclusão de que, porque toda a gente tem culpas, ninguém é culpado".

"O mundo não tem mais problemas que os problemas das pessoas".

"Não se deixe enganar, o senso comum é demasiado comum para ser realmente senso, no fundo não passa de um capítulo da estatística, e o mais vulgarizado de todos".

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

O homem duplicado e o ano novo.

Nada como começar o ano literariamente bem acompanhado. E José Saramago é um excelente companheiro. Há cinco anos comecei a ler O homem duplicado e por conta daquelas circunstâncias que não se explicam e livros lidos ao mesmo tempo acabei não terminando, embora a leitura estivesse adiantada. Pois bem, acabou. Ou acabei.

Esse (como sói ocorrer com todos os textos de Saramago) é o típico livro que não se encerra com a última linha. O que eu faria se, do nada, encontrasse uma pessoa exatamente igual a mim? Não um gêmeo perdido, mas um igual, um absolutamente igual, inclusive nas cicatrizes? O que você faria?

Em tempos de superexposição na internet e avalanches de selfies, onde nossa identidade volta e meia se perde dada a necessidade generalizada de sermos todos bonitos e felizes, e onde queremos ser diferentes sendo iguais a todo mundo, essa hipótese se torna ainda mais enigmática.

Entretanto, cometi um pecado. Vi o filme O homem duplicado já em seguida (com Jake Gyllenhall, e direção do atualmente festejado Denis Villeneuve). A película não é ruim, não mesmo. Mas falta a intensidade das personagens da caneta de Saramago - o que é perfeitamente natural. A angústia do filme não chega aos pés da expectativa das páginas.

Se quiser ver um bom filme (não um filme booommm), é uma sugestão - só não me pergunte da aranha. Se quiser ler um livro denso, melhor que o filme, recomendo. Se optar pelos dois, leia o livro antes.

Ao longo da semana repassarei alguns trechos do livro. Sem spoiler.

sábado, 7 de janeiro de 2012

Ano novo, tudo igual.

Ano novo, vida nova. É o que mais se ouve por aí quando giram os números do ano no calendário. Menos do que isso só as promessas. E, ainda assim, uma coisa tem a ver com a outra.

Ano novo, vida nova. Comportamentos novos, metas novas, disposições novas, trabalhos novos, namoradas novas, carros novos, mesmo que as propostas sejam velhas, as mesmas de todos os anos.

Creio que poucos são os que conseguem cumprir suas novas metas. Em primeiro lugar, devem ser projetos viáveis. Nada miraculoso se consegue da noite para o dia, ainda que esse período seja de um ano. E, além de viável, deve ser realmente motivador. Meta por meta, só para dizer que tem uma, no fundo de nada serve.

Por outro lado, há aqueles que simplesmente pulam as tais sete ondas sem saber exatamente por quê. Comem uvas, amarram fitinha amarela no pulso, usam roupas brancas novas, esfregam a nota de dinheiro mais alta nas mãos, ceiam lentilha com carne de porco, entre diversas outras crendices ou superstições, sem saber os motivos. Apenas porque os outros fazem. Porque todos fazem.

E também há, ainda que em menor número, aqueles que não fazem nada porque “a vida continua assim mesmo; nada muda”, sem esperanças ou simplesmente por acomodação.

Os acomodados e os que fazem somente porque todo mundo faz são, na minha opinião, os piores.

Falo disso tudo porque um dos livros que li nessas minhas curtas férias foi “O homem duplicado” do saudoso Nobel da literatura português José Saramago. Antes de viajar para a praia separei alguns títulos e este estava lá, meio esquecido, esperando sua vez, que finalmente chegou.

Não vou falar do livro. Deixarei esse prazer para os leitores. Quero trazer apenas duas breves passagens que penso estar de acordo com nossa conversa de hoje.

Estava uma noite Tertuliano Máximo Afonso, o personagem principal do livro, indeciso entre corrigir os trabalhos de História de seus alunos de ensino secundário, continuar a leitura de uma obra sobre antigas civilizações mesopotâmicas ou ver um filme indicado por um professor da escola onde trabalhava chamado “Ganhou quem porfia mata caça”. Optou por decidir sua sina através de uma cantiga infantil ao estilo “sorvete colorê, o escolhido foi você”. Venceu o filme.

E pensou Tertuliano (vou deixar a pontuação como no original, típica de Saramago, assim como a grafia): “está visto que o que tem de ser, tem de ser, e tem muita força, nunca jogues as pêras com o destino, que ele come as maduras e dá-te as verdes. É o que geralmente se diz, e, porque se diz geralmente, aceitamos a sentença sem mais discussão, quando o nosso dever de gente livre seria questionar energicamente um destino despótico que determinou, sabe-se lá com que maliciosas intenções, que a pêra verde é o filme, e não os exercícios ou o livro”.

Os acomodados e os que vão na onda dos outros são os que justificam seus dissabores e agruras como obra do destino. Sempre perdem as peras maduras para o destino, amargando com as verdes, que nunca podem ser aproveitadas agora sem um gostinho ruim na boca.

Isso me leva a outra passagem do livro: “Tanto é o que precisamos de lançar culpas a algo distante quando o que nos faltou foi a coragem de encarar o que estava na nossa frente”.

Que 2012 seja o ano em que seremos os donos dos nossos destinos e que tenhamos a coragem de encarar o que vier pela frente. Seja o que for!

sábado, 19 de junho de 2010

José Saramago.


Ontem, em viagem, fui surpreendido com a morte do único escritor da língua portuguesa a ganhar um Prêmio Nobel. José Saramago faleceu aos 87 anos e qualquer coisa que eu falar aqui vou repetir o que milhares de sites já falaram.

Minha pequena experiência com o escritor foi um tanto truncada no início. Eu tentei ler umas duas ou três vezes Jangada de pedra e não saía do primeiro capítulo. Depois descobri que eu não entendia a sistemática de escrita de Saramago.

Antes do filme Ensaio sobre a cegueira, li o livro. Fiquei realmente impressionado como ele transformou um roteiro aparentemente frágil e escatológico em uma história densa, profunda e de constante reflexão. Obviamente a película não chegou aos pés das páginas, mas penso que dada a complexidade da história (no que se refere aos questionamentos da obra) ainda foi boa.

Depois de mais alguns livros comprados, acompanhei, também, por bom tempo o blog do escritor Cadernos de Saramago (que depois também virou livro). Alguns trechos cheguei a referir aqui no Bacafá.

Foi uma lamentável perda, mas de um homem apaixonado, até onde sei, pela língua portuguesa, pelos livros, pela vida e pela sua mulher. E que, ao que tudo indica, aproveitou bem sua vida terrena.

Fica aqui minha pequeníssima homenagem ao escritor.

domingo, 28 de junho de 2009

Tantanizando.

Li essa expressão pela primeira vez no livro A resistência, do argentino quase centenário Ernesto Sabato. Conheci esse autor pelas mãos do meu amigo livreiro Gelson Bini, e gostei muito. Coincidentemente, acessando o site do escritor José Saramago essa semana, vi a homenagem deste àquele, amigo de longa data. Há, inclusive, no blog do escritor português uma bela foto dos dois, justamente essa aí ao lado. Foi uma grata surpresa ver Saramago escrevendo sobre Sabato em homenagem ao seu aniversário de 98 anos.

Do livro não posso dizer muito, ainda, pois não o terminei. Na realidade me culpo por estar lendo tão pouco, tão menos do que gostaria e deveria. Ossos do ofício, ou das obrigações a que me dei. E um pouco culpa da minha desorganização também.

No primeiro capítulo de A resistência o argentino fala do quanto estamos perdendo nossa humanidade, nosso caráter de humanos. O quanto esquecemos de conversar, simplesmente, com as pessoas. O quanto achamos mais bonito ver um jardim pela tela de um computador em vez de passar os pés descalços na grama. O quanto esquecemos de apreciar o céu ou as árvores no caminho para casa – nesse ponto o escritor me fez lembra os motivos pelos quais prefiro ir a pé do escritório para casa, ao meio-dia, com minha filha, em vez de voltarmos de carro. Conversamos muito mais assim, observando as casas, as ruas, os quintais. De carro, além de ser muito rápido (moramos numa cidade onde tudo é perto), a concentração no trânsito (cidade pequena não é sinônimo de bons motoristas) não permite conversas mais profundas.

E algo que me chamou muita atenção nesta primeira parte do livro foi a comparação que Sabato fez da televisão com as luzes acesas à noite. Nós estamos para a luminosidade da televisão como os insetos para a luminosidade das luzes. A televisão está nos tantanizando. E não estamos percebendo.

Mas o autor ainda tem esperança no ser humano. Tem fé que o homem possa mudar sua mentalidade e, consequentemente, mudar os rumos do seu destino. Mais do que isso: “Apesar de tudo, como é admirável o ser humano. (...) Acredito nos cafés, no diálogo, acredito na dignidade da pessoa, na liberdade.”

Bom, eu também acredito nos cafés e no diálogo. Também acredito que podemos ter um futuro melhor. Acredito que, mais cedo ou mais tarde, as pessoas de bem vão se sobrepor definitivamente às pessoas de má-fé.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Questão de cor.

"Diálogo num anúncio de automóveis na televisão. Ao lado do pai, que conduz, a filha, de uns seis ou sete anos, pergunta: “Papá, sabias que a Irene, a minha colega da escola, é negra?” Responde o pai: “Sim, claro…” E a filha: “Pois eu não…” Se estas três palavras não são precisamente um soco na boca do estômago, uma outra coisa serão com certeza: um safanão na mente. Dir-se-á que o breve diálogo não é mais que o fruto do talento criador de um publicitário de génio, mas, mesmo aqui ao lado, a minha sobrinha Júlia, que não tem mais que cinco anos, perguntada sobre se em Tías, localidade onde vivemos, havia negras, respondeu que não sabia. E Júlia é chinesa…

Diz-se que a verdade sai espontaneamente da boca das crianças, porém, vistos os exemplos dados, não parece ser esse o caso, uma vez que Irene é realmente negra e negras não faltam também em Tías. A questão é que, ao contrário do que geralmente se crê, por muito que se tente convencer-nos do contrário, as verdades únicas não existem: as verdades são múltiplas, só a mentira é global. As duas crianças não viam negras, viam pessoas, pessoas como elas próprias se vêem a si mesmas, logo, a verdade que lhes saiu da boca foi simplesmente outra.

Já o sr. Sarkozy não pensa assim. Agora teve a ideia de mandar proceder a um censo étnico destinado..."

Texto do Caderno de Saramago. Continue lendo clicando aqui.

domingo, 12 de abril de 2009

Ensaio sobre a cegueira

Terminei, sexta-feira, a leitura do livro de José Saramago. Vi o filme no sábado. O filme é bom, mas incomparável ao livro. Os detalhes do livro, as discussões, as reflexões não são possíveis de passar ao filme, sob pena de termos uma película arrastada de três horas ou mais.

De todo modo, o livro é contundente. Um soco. A questão não é a improvável situação de todos ficarmos cegos de uma hora pra outra, mas o quanto somos cegos no dia a dia. E o quanto seríamos cegos dentro de circunstâncias violentas e inesperadas.

É o livro que se fecha, na última página, e ainda se fica pensando algum tempo, alguns dias, talvez algumas semanas sobre a história. Deglutindo e refletindo.

Lembrou A estrada, de Cormac, que já falei aqui. Só lembrou porque o li antes; penso que Cormac usou alguns elementos desse livro de Saramago. Pode ser só impressão minha, mas, para ficar no exemplo mais simples, os personagens não têm nomes. As discussões também tem muitos pontos em comum. Vale a pena ler os dois. Quem quiser ler meu comentário sobre A estrada, clique ali em cima no nome do livro.
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"... se antes de cada actro nos puséssemos a prever todas as consequências dele, a pensar nelas a sério, primeiro as imediatas, depois as prováveis, depois as possíveis, depois as imagináveis, não chegaríamos sequer a mover-nos de onde o primeiro pensamento nos tivesse feito parar. Os bons e os maus resultados dos nossos ditos e obras vão-se distribuindo, supõe-se que de uma forma bastante uniforme e equilibrada, por todos os dias do futuro, incluindo aqueles, infindáveis, em que já cá não estaremos para poder comprová-lo, para congratular-nos ou pedir perdão, aliás, há quem diga que isso é que é a imortalidade de que tanto se fala."

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Saramago

O texto abaixo li, sob o título Vaticanadas, no blog do escritor português José Saramago.

Simplesmente concordo:

"Ou vaticanices. Não suporto ver os senhores cardeais e os senhores bispos trajados com um luxo que escandalizaria o pobre Jesus de Nazaré, mal tapado com a sua túnica de péssimo pano, por muito inconsútil que tivesse sido e certamente não era, sem recordar o delirante desfile de moda eclesiástica que Fellini, genialmente, meteu em Oito e Meio para seu e nosso gozo. Estes senhores supõem-se investidos de um poder que só a nossa paciência tem feito durar. Dizem-se representantes de Deus na terra (nunca o viram e não têm a menor prova da sua existência) e passeiam-se pelo mundo suando hipocrisia por todos os poros. Talvez não mintam sempre, mas cada palavra que dizem ou escrevem tem por trás outra palavra que a nega ou limita, que a disfarça ou perverte. A tudo isto muitos de nós nos havíamos mais ou menos habituado antes de passarmos à indiferença, quando não ao desprezo. Diz-se que a assistência aos actos religiosos vem diminuindo rapidamente, mas eu permito-me sugerir que também serão em menor número até aquelas pessoas que, embora não sendo crentes, entravam numa igreja para disfrutar da beleza arquitectónica, das pinturas e esculturas, enfim de um cenário que a falsidade da doutrina que o sustenta afinal não merece."

Continue lendo n'O Caderno de Saramago.