Bacafá

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quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Ônibus e controvérsias.


Reputam a Voltaire a segunte frase (mais ou menos assim): “Posso não concordar com o que falas, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-las”.

Começo lembrando o filósofo iluminista francês por conta da celeuma criada em volta da opção do prefeito suljaraguaense de ir de ônibus para o paço municipal. Ouvi e li muitas coisas, das quais várias discordo frontalmente – e não por fazer parte do governo, pois quem me conhece, sabe da minha independência de pensamento. Mas respeito todas as opiniões.

Alguns julgaram o uso do transporte coletivo pelo prefeito como demagogo. Outros, que é incoerente, pois aparentemente gastaria mais com passagem do que com combustível, se fosse com o próprio automóvel.

Curiosamente, se políticos estrangeiros resolvem ter vidas austeras, são respeitados por lá e invejados/comparados por cá. Se políticos tupiniquins fazem o mesmo, têm algum interesse por trás. A velha história da grama do vizinho ser sempre mais verde. Já escrevi sobre essa sensação de inferioridade arraigada em algumas pessoas, o que pode ser revisto aqui: http://bacafa.blogspot.com.br/2012/11/a-vida-dos-outros.html.

O prefeito não precisa de ninguém que fale por ele, mas trago minhas impressões aos caros leitores sobre a situação. Não é necessário ser nenhum gênio para saber que as suas intenções vão além da economia – até porque, como já dito, é bem provável que isso não ocorra.

Então pergunto: qual a melhor maneira de ouvir o povo se não andando em seu meio? Se o chefe do executivo municipal não pode fazer isso todos os dias por razões óbvias, por que não ir ao trabalho vez ou outra de ônibus? Além disso, poderá, nestas ocasiões, sentir na pele o que o trabalhador sente todos os dias. A primeira repercussão positiva já ocorreu: a concessionária finalmente colocou no terminal um posto para compra dos cartões de passagens, facilitando a vida do usuário.

É óbvio, também, que nestas viagens relativamente curtas o prefeito não descobrirá e nem sentirá todas as agruras do trabalhador, e nem achará a panacéia para o sistema viário. Contudo, indiscutivelmente, é um começo. Alguns secretários e diretores também estão seguindo o exemplo, o que faz com que a abrangência da observação seja muito maior. O próprio povo, cansado de falar e nunca ser ouvido, trará, agora, suas reclamações e sugestões. É, sem dúvida, uma corrente do bem, que tende a ser potencializada se as pessoas sentirem confiança no trabalho que está só começando.

E para que não falem, ainda, que também sou um oportunista, deixo um texto que escrevi sobre trânsito e foi publicado em 19.01.2011, ou seja, há quase dois anos (http://bacafa.blogspot.com.br/2011/01/transito-la-e-ca.html), encerrando assim: “Assim, enquanto a administração não traz as soluções devidas, nós cidadãos e eleitores podemos fazer a nossa parte. Quem sabe qualquer hora dessas encontramos a prefeita no ponto de ônibus...”

Em tempo: é importante que se diga que ouvi muitos mais elogios ao prefeito do que críticas negativas.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Campos de concentração.


Quando se fala em campos de concentração invariavelmente a maioria das pessoas – se não a totalidade – lembra daqueles organizados pelo Terceiro Reich, capitaneado por Adolf Hitler e seguido por seus lacaios nazistas na Segunda Grande Guerra, onde morreram milhões de pessoas. À exceção do não muito são presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, ninguém mais parece negar a existência daquele genocídio. E temos consciência, também, que guerra nada nos traz de bom, gerando apenas consequências abomináveis e libertando os monstros de homens até então considerados civilizados.

Essas abominações e monstruosidades consequentes das guerras (alguns historiadores chamam a próxima guerra mundial de “A última guerra”), porém, não parecem ter nos ensinado muito.

Embora o pseudo-líder da Coreia do Norte, o pop Kim Jong Un, negue, fotografias de satélites demonstram que em pleno século XXI ainda há campos de concentração pelo mundo. Estimativas apontam entre 70.000 e 100.000 pessoas confinadas nestas excrescências da humanidade naquele país. Suspeita-se de outros em várias partes do mundo. Isso sem contar outro absurdo comum, os campos de refugiados, frutos de guerras entre países ou civis. Para que não nos achemos o país onde nada de ruim acontece (?), fica a informação de que aqui também já tivemos campos de concentração, sendo o mais famoso no Ceará, no início do século passado, em épocas de seca, ficando conhecidos como “currais do governo”, com condições absolutamente desumanas. Em Joinville, durante a Segunda Guerra, também já teve algo parecido com isso, com duzentas pessoas confinadas por suspeita de nazismo em um hospício desativado.

Fico pensando com meus botões como podemos admitir essas situações ainda hoje; como as autoridades poderosas do mundo admitem que milhões de pessoas (nos campos de concentração e nos campos de refugiados) possam passar sua existência confinados, muitos nascendo, crescendo e morrendo sem saber o que é um passo fora dos arames farpados e cercas elétricas. E o quanto nós, reles mortais brasileiros, ou de qualquer outra parte do mundo, somos responsáveis por estes tristes e lamentáveis eventos.

Ainda acredito que vivemos num mundo melhor que nossos antepassados. Proporcionalmente, temos menos guerras do que em outros tempos, quando tudo se resolvia nas espadas e nas lanças. Vivemos mais tempo, em média, também, o que demonstra que os sistemas de saúde e saneamento melhoraram. Temos mais conforto e mais tecnologia.

Falamos instantaneamente com qualquer pessoa do outro lado do mundo e pessoas morrem em campos de concentração ou de sede...

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Adulteração infantil - parte II


Semana passada tratei da adulteração infantil praticada pelos parentes próximos, normalmente pelas mães, tias e avós contra as meninas. Não só contra estas, e nem só por aquelas, é verdade. Mas normalmente são as meninas as que mais sofrem com o amadurecimento precoce decorrente das maquiagens, roupas, acessórios e assuntos que lhes são empurrados goela abaixo. Por um lado, fiquei feliz, pois recebi muitas manifestações concordando com a minha indignação; por outro, preocupado, pois muitas destas pessoas que a mim se dirigiram disseram, também, que infelizmente estão a ver mais e mais situações como estas.




Alguns amigos vão rir, mas entendo que boa parcela de culpa desta situação é, além da ausência de conversa dentro de casa e perda de valores básicos, a falta de leitura. As pessoas têm lido pouco, e em todas as classes sociais. E, pior, têm simplesmente trocado a leitura (de bons livros) pelos programas destrutivos da TV, que, muitas vezes, emporcalham corações e mentes, pois é de mais fácil digestão para quem não adubou o hábito da leitura. Uma coisa leva a outra, e sobre isso eu poderia escrever aqui algumas páginas. Afinal, como já disse Ernesto Sábato, a televisão nos tantaniza, com aquelas cores e brilho hipnotizantes.

Entretanto, hoje quero falar de outro ponto da adulteração infantil: da publicidade voltada às crianças. É sabido que a cada ano que passa os pais se deixam cada vez mais levar pelas vontades dos filhos. As razões são as mais variadas. Vão desde a completa falta de domínio dos filhos por incapacidade de educação até à consciência pesada pela ausência decorrente dos inúmeros compromissos (que muitas vezes nem do trabalho são). E as indústrias e agências de publicidade, que não são bobas, se aproveitam desta fraqueza dos pais.

O filho está boa parte do dia em frente à televisão vendo seus programas infantis recheados de merchandising, sendo que a criança pensa que o apresentador realmente consome aquele produto que diz que é bom. Isso sem contar os efeitos especiais que supervalorizam os produtos ou serviços oferecidos. Se os adultos se impressionam, imaginem as crianças.

Por isso, sou daqueles que defendem radicalmente a proibição de publicidade de produtos e serviços para o público infantil na televisão aberta, nos canais infantis da televisão fechada e nas revistas para crianças e adolescentes. Quem tem que decidir se o produto é bom, e ser convencido disso, são o pai e a mãe, e não os filhos.

Há projetos de lei tramitando no Congresso Nacional sobre o assunto. O tema é polêmico, porém, e o lobby das agências e das indústrias muito forte. Fala-se, até, em liberdade de expressão, o que, no meu ponto de vista, é um engodo. Um problema ainda maior é a internet, mas aí é tema para outra discussão.

Quem quiser ter ideia da gravidade que é a publicidade para o público infantil assista o vídeo abaixo, “Criança, a alma do negócio”:


sábado, 29 de dezembro de 2012

Tarifário de um bordel de Roma do século passado.


Pelo email que me chegou, este anúncio foi publicado em um jornal de Roma em 1923. Por este mesmo email, a tradução literal da palavra "sveltina" é "rapidinha". Também se percebe que as tarifas eram reduzidas para estudantes e militares com o aviso ao final do anúncio publicitário.

Dica do empresário Dinael Chiodini.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Quem tem 40 ou mais lembra.

Quem ouvia música na década de 80 - e naquela época não existiam 300 canais de televisão para fugir da rede aberta e muito menos a internet - vai lembrar da música abaixo (Feiticeira, de Carlos Alexandre - confesso que só lembrava do ritmo e nem sonhava quem cantava), um primor de breguice.



Ocorre que nessas navegadas internetíferas, me deparo com uma versão funk da Feiticeira, de um grupo chamado DeFalla, que não sei se é algum filhote ou algo remanescente de uma banda homônima também dos anos 80, mas que tocava um rock bacana. Parece que é...

Taí a versão funk de feiticeira. Eleja a pior. Ou ria muito:

http://www.radio.uol.com.br/musica/de-falla/feiticeira/263081


Uma das músicas do antigo DeFalla que eu lembro é essa aqui:

http://br.myspace.com/defallaband/music/songs/repelente-5808414

Outra é essa, uma versão de "Como vovó já dizia", do Raul Seixas e do Paulo Coelho:




Parece que o fim do mundo ficou mesmo para 2014!!

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Adulteração infantil


Dia desses, cortando o cabelo, percebi duas meninas com seus cinco ou seis anos de idade, fazendo as unhas nas manicures do mesmo salão. Questionei a minha cabeleireira se era muito comum crianças nessa idade fazerem as unhas (talvez eu, aqui, esteja usando a expressão errada, mas estavam, lá, as pequenas, pintando as unhas). Ela me respondeu que sim. Comentou, inclusive, que uma menina dos seus três ou quatro anos apareceu no salão com uma sandália com um saltinho. Pequeno, mas um salto.

Torno ao assunto, então, porque já comentei sobre isso nessa coluna e o que penso. Aproveito a época de Natal, transformada em uma grande data de comemoração capitalista, na qual muitas das pessoas (se não a maioria) que dizem acreditar nos dogmas cristãos ou teológicos, acabam se preocupando mais com o tamanho do peru do jantar, com os presentes que querem dar ou receber ou para onde vão nas férias de final de ano.

O fato é que cada vez mais cedo as crianças estão sendo transformadas em mini-adultos. É o que eu tenho insistentemente chamado de adulteração infantil, pois estas crianças estão sendo adulteradas, falsificadas, corrompidas ao terem suas mentes e corpos levados precocemente para a vida adulta.

Este fenômeno acontece principalmente com as meninas, vítimas de suas mães, tias e avós frustradas com o que não tiveram na sua infância ou, o que pode ser ainda pior, pressionadas pela cultura midiática do ter em detrimento do ser. Essas meninas crianças transformadas em mini-adultas podem agradar aos olhos de maníacos (tanto sexuais quanto consumistas), mas não aos meus e, acredito, da maioria das pessoas.

Sempre digo, também, que psicólogos e ortopedistas podem explicar melhor do que eu todas as conseqüências mentais e físicas a que estas crianças estão sujeitas, mas, ainda assim, dou meus pitacos.

O que dizer de meninas com seis, sete, dez anos, andando de sapatos ou sandálias com saltos, bolsas gigantes nos braços, com as caras pintadas, às vezes parecendo umas mini-prostitutas, celulares de última geração na mão e se comportando como adolescentes mimadas de 17 anos?

Primeiro, não vão sequer brincar aquelas brincadeiras tão salutares para corpo e mente de sua idade. Que menina-pseudo-adulta destas vai querer suar para brincar de pegar, esconde-esconde, amarelinha, elástico ou bambolê? E se quiser, como vai fazer com saltos debaixo dos pés? E se ficar descalça, onde vai deixar sua bolsa de marca ou seu celular de última geração, sendo que seus pais devem dizer “cuidado, não perca isso que foi muito caro”?

Segundo, como vão ficar os pés, joelhos e colunas destas meninas usando salto desde a infância? E isso descamba para coisas piores. Vi uma reportagem outro dia onde uma menina de 13 anos queria colocar silicone nos peitos. A mãe e o médico, pelo menos na televisão, disseram que não permirtiriam. Entretanto o que, cargas d’água, estavam fazendo num consultório eu não sei.

Voltarei ao tema semana que vem, tratando de outro fator: a publicidade.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Você tem fome de que?


“Bebida é água! / Comida é pasto! / Você tem sede de que? / Você tem fome de que? / A gente não quer só comida / A gente quer comida / Diversão e arte / A gente não quer só comida / A gente quer saída / Para qualquer parte...

A gente não quer só comida / A gente quer bebida / Diversão, balé / A gente não quer só comida / A gente quer a vida / Como a vida quer...

A gente não quer só dinheiro / A gente quer dinheiro e felicidade / A gente não quer só dinheiro / A gente quer inteiro e não pela metade...”

Essa música da banda Titãs, do álbum “Jesus não tem dentes no país dos banguelas”, também da década de 80, reflete, de uma maneira divertida, a expectativa de qualquer pessoa.

É claro que comida é essencial para o ser humano. É a preocupação mais primordial de todas, não tendo comparação com qualquer outra necessidade ou esperança. Nestes aspecto, entre erros e acertos do Governo Lula, penso que foi o seu tiro mais certeiro. Como já dizia o saudoso sociólogo Betinho “quem tem fome tem pressa”.

Ao tirar milhões da linha da pobreza e extrema pobreza, o Governo Lula conseguiu fazer com que estas pessoas passassem a ter outras preocupações que não a de comer no final do dia. Estas pessoas puderam pensar em outras coisas. Puderam sentir o gostinho e o prazer de outras necessidades. Puderam passar a viver e não apenas a lutar para sobreviver. Puderam sonhar.

Lembrei desta música e do resultado de mais pessoas pensando menos em comida quando acompanhei o lançamento do FEMUSC 2013. Deu fome de FEMUSC. Os músicos nacionais e internacionais importantes que participarão do Festival. O crescente número de alunos inscritos e interessados. A importância que a mídia nacional está dando ao evento. O quanto este festival se tornou importante para a imagem e economia de Jaraguá do Sul.

E mais, do alto dos meus sonhos utópicos, mais importante do que o dinheiro que fica na região por conta do evento, é a possibilidade do nascimento ou da lapidação de possíveis superdotados da música. Dá sede de FEMUSC.

A gente não quer só comida; a gente quer comida, diversão e arte, diversão, balé.

E a música é tão genial que não fala só de comida, bebida e arte. Fala de liberdade. Fala que nada disso adianta se não houver liberdade para comer o que se quiser, fazer e aproveitar a arte que quiser. Ir e vir quando quiser e pra onde quiser.

Afinal, o que se busca de verdade mesmo, é a felicidade, seja de que forma for. De preferência inteira, e não pela metade.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Torpor


“No beco escuro explode a violência / No meio da madrugada / Com amor, ódio, urgência / Ou como se não fosse nada / Mas nada perturba o meu sono pesado / Nada levanta aquele corpo jogado / Nada atrapalha aquele bar ali na esquina / Aquela fila de cinema / Nada mais me deixa chocado.”

O trecho acima extraí da música “O beco” dos Paralamas do Sucesso, da década de 1980. E me parece, ainda, atual. Ou cada vez mais atual. Infelizmente.

No beco escuro, na rua iluminada, dentro de casa, na porta das escolas, explode a violência. Violência de todas as maneiras. O usuário de drogas querendo dinheiro para comprar o vício. O traficante para cobrar do usuário. O marido batendo na esposa. Os alunos pelos motivos mais insignificantes.

A violência avisada e premeditada pelas redes sociais entre grupos (torcidas organizadas de futebol ou outras gangues quaisquer) que não se toleram. Violência velada com as ameaças ou imposições dos mais fortes contra os mais fracos. Violência fatal nos assaltos por um par de tênis.

Violência no trânsito com ou sem álcool no sangue. Violência nos campos de futebol (profissionais ou de várzea) com as entradas desleais no adversário. Violência entre vizinhos por mera intolerância. Intolerância de todas as formas, por conta das escolhas religiosas, sexuais ou profissionais alheias. Intolerância de todas as formas, até quando não se trata de escolha, pela cor da pele ou lugar de origem.

Violência ética dos políticos que vendem ideias e compram votos e desviam verbas públicas. Das verbas públicas que nunca chegam onde deveriam chegar e matam nas filas dos hospitais de dos pronto-socorros. Das verbas públicas que não chegam nas escolas e no lazer e despejam as crianças e adolescentes nas ruas da criminalidade. Violência dos nossos políticos por estarem mais preocupados com suas contas bancárias do que com sua obrigação legal.

Violência que transborda dos nossos televisores, rádios, jornais e revistas. Especialmente dos nossos televisores que nos tantanizam com seu brilho sedutor e suas cores feiticeiras.

Violência das crianças com fome e frio. Das famílias sem casas. Dos idosos esquecidos. Dos índios jogados pelas ruas das metrópoles ou pequenas cidades. 

Violência contra animais indefesos nos rodeios, nas jaulas, nos atentados no meio da rua.

E nós continuamos normalmente nossas vidas, vendo a banalização da violência de todas as formas e com todas as cores. Ávidos por mais violência porque a que já está aí parece insuficiente.

Nada mais atrapalha nossa cervejinha, nada mais nos deixa chocado. A não ser que aconteça conosco ou com nossa família...

Macaco

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Contos de quinta - Cigarros.


O silêncio imperava entre os dois, apesar da música alta na boate. Muita gente, muitos risos, muitas palavras desconexas perdidas, muita bebida, pouca luz. As pessoas dançavam, circulavam, acotevelavam-se, falavam.

Ele olhava para ela. O vestido preto, curto e justo e sua mente se misturavam. Ela segurava o copo com uma mistura alcóolica qualquer e também olhava para ele. Apenas os olhos conversavam.

- Quer fumar?

Ela anuiu com a cabeça e os dois saíram da boate pela porta dos fundos (ele conhecia os donos do lugar e os seguranças, que não criaram nenhum empecilho). A porta dava diretamente no estacionamento a céu aberto. Encostaram-se em um carro e ele acendeu o primeiro cigarro. O dela.

Quando foi acender o seu, viu um cara com uma jaqueta de couro e algo que parecia uma arma apontada para cima correndo na direção deles. Largou o cigarro e o isqueiro e puxou-a para baixo. Já era tarde.

- Passa a carteira.
- Calma, calma... já passo.

Ela ficou no chão, sentada abraçando as próprias pernas, imóvel, olhando pra porta do carro. Ele foi se levantando devagar. Tenso, quase sem respirar. A arma apontada para seu rosto.

- Calma, calma... sou advogado, não precisa se preocupar...
- Advogado?
- Sim.

O cara respondeu um “bom” longo e baixo e esboçou um sorriso conciliador. Ele, vendo a feição do cara, então respirou e relaxou. Os ombros até baixaram, o pescoço desenrigeceu.

Ouviu-se apenas o estouro da bala no cérebro dele, que caiu sem vida na poça d’água. Ela continuou sentada, abraçada as suas próprias pernas, imóvel, de olhos fechados.

Cansei de ser sexy - aulas para aprender a dançar (ou não)