Bacafá

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quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

A estrada, de Cormac McCarthy

A estrada, de Cormac McCarthy é um daqueles livros angustiantes que valem a pena ser lidos (em matéria de agonia, só o comparo ao Lolita, de Vladimir Nabokov). A história de pai e filho num mundo apocalíptico (ou pós) onde tudo sempre está em jogo, em especial os conceitos que um ensina ao outro.

"Nesta estrada não há homens inspirados por Deus. Eles se foram e eu fiquei, eles levaram consigo o mundo. Pergunta: como faz aquilo que nunca será para ser diferente daquilo que nunca foi?"

Embora alguns diálogos tenham me parecido um tanto confusos, o autor, de 75 anos, e com já vários romances na carreira, envolve o leitor com o perturbador medo do que vai acontecer com os dois, pai e filho. Os cenários, sempre devastados, são muito bem descritos, fazendo com que se possa não só imaginar, mas ter a sensação de que estamos observando tudo escondidos atrás de uma árvore próxima (chegando perto do primor das descrições do impressionante Memórias de Adriano, de Marguerite Yourcenar).

"As pessoas estavam sempre se preparando para o amanhã. Eu não acreditava nisso. O amanhã não estava se preparando para elas. Nem sabia que elas estavam ali."

Esse livro apareceu sorrateiramente na minha mesa quando estava tomando um chocolate quente na livraria que freqüento aqui em Jaraguá. Só posso agradecer ao amigo e verdadeiro livreiro Gelson Bini, que me apresentou à obra, instigando-me com resumo-suspense.

sábado, 17 de janeiro de 2009

Ana Cristina César

Um Beijo

que tivesse um blue.
Isto é
imitasse feliz a delicadeza, a sua,
assim como um tropeço
que mergulha surdamente
no reino expresso
do prazer.
Espio sem um ai
as evoluções do teu confronto
à minha sombra
desde a escolha
debruçada no menu;
um peixe grelhado
um namorado
uma água
sem gás
de decolagem:
leitor embevecido
talvez ensurdecido
"ao sucesso"
diria meu censor
"à escuta"
diria meu amor


Ana Cristina César, ou simplesmente Ana C. ou Ana Cristina C., nasceu no Rio de Janeiro em 1952, e suicidou-se em 1983. Dona de características muito próprias, fui a ela apresentado pela biblioteca da UFSC, no início da década de 90. Provavelmente devo ter lido alguma coisa em algum jornal ou ensaio da época, a ponto de procurá-la entre os livros de poesia da BU.

O fato é que simplesmente gostei; descobri uma escritora marginal e visceral. Forte como sua história. Efêmera e perene. Ano passado fez 25 anos de sua morte e praticamente nada dela se falou fora do círculo literário. Aí em cima, um texto dela. Aqui embaixo, um texto de Carlos Drummond de Andrade para ela:

Ausência

Por muito tempo achei que ausência é falta
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
Ausência é um estar em mim.
E sinto-a tão pegada, aconchegada nos meus braços
Que rio e danço e invento exclamações alegres.
Porque a ausência, esta ausência assimilada,
Ninguém a rouba mais de mim.
(Carlos Drummond de Andrade – Com o pensamento em Ana Cristina)


Eu mesmo me arrisquei por estas searas. Claro que não com o mesmo traço refinado de Carlos Drummond de Andrade. Mas vá lá. Essa é de junho de 1992:

Mudo convite a Ana Cristina C.

Passos descompassados
Avisos desavisados
Horas atrasadas

Perdida em confusas frases
Semanas melancólicas
Deixei de entender muita coisa
Deixei me entender você
Prender-me as suas dúvidas
Suas certezas quase puras
Noites breves
Experiências coloridas de uma vida em preto e branco
Ou vice-versa

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Junky, de Willian Burroughs

Maconha não induz ninguém ao crime. Nunca vi ninguém ficar belicoso sob o efeito do fumo. Fumetas são uma raça de sociáveis. Sociáveis demais pro meu gosto. Não entendo porque as pessoas que acusam a maconha de instigadoras de crimes não vão mais longe e pedem também a proibição do álcool. Todos os dias você vê bêbados cometendo crimes que não aconteceriam se estivessem sóbrios.

...

Ouve-se falar que pessoas enlouquecem por causa da maconha. De fato, pode ocorrer um certo tipo de demência com o uso excessivo da erva, caracterizada por um tipo de raciocínio demasiado alusivo e abstrato. Todavia, a maconha vendida nos Estados Unidos não é forte o suficiente para cozinha os miolos de um cidadão; nos States é muito raro se encontrar casos de psicose de maconha. ... Quem fuma uns poucos cigarrinhos por dia está tão sujeito a pirar quanto um sujetio que toma seus drinques antes de jantar.

Mais uma coisa sobre maconha: uma pessoa fumada fica completamente inepta para dirigir automóvel. A maconha perturba a percepção do tempo e, em conseqüência, também das relações espaciais. Uma vez, em Nova Orleans, tive de parar no acostamento e esperar o barato baixar. Eu não conseguia avaliar as distâncias entre as coisas, nem calcular o momento certo de virar ou pisar no freio.

Junky, de Willian S. Burroughs, é um livro que me foi apresentado e emprestado pelo Gelson da Grafipel, e narra a história de um viciado em drogas pesadas (junky) no período final e pós II Grande Guerra, que vivia nos Estados Unidos, ou States, como ele fala no livro.

Mostra o mundo desses viciados e tudo o que os cerca com uma linguagem curta e contundente, crua e fria, característica dos escritores beat (isso deduzi das lições do Gelson sobre essa rara safra de escritores).
Nesta parte que transcrevi, o personagem faz uma interessante análise comparativa entre a maconha e o álcool e nos demonstrando como a HIPOCRISA que já existia naquele tempo persiste até hoje.

Vale destacar que o livro foi escrito em 1953 e essa edição que estou lendo é da Editora Brasiliense, de 1984 (sem código de barras, pai?, como questionou minha filha) e a capa é exatamente essa aí de cima (com exceção do 2a. edição).

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

A lua

De repente a lua cheia caiu
(apenas uma lombada na estrada)
Da janela suja do ônibus.

Irina Ahcor

domingo, 16 de novembro de 2008

A arte de produzir efeito sem causa

Como falei na postagem anterior, estava terminando de ler esse livro. Terminei. O livro é muito bom, considerando o meu gosto, obviamente. Um labirinto de dúvidas, ou melhor, a própria labirintite.

Não gostei do final, apesar de ter gostado do livro e recomendá-lo sem medo, mas acredito que é porque ainda estou digerindo o que aconteceu - na história. Um livro diferente.

Agradeço ao André da Livraria Grafipel pela indicação. Essa semana recomeço a ler A estrada, recomendação do Gelson, também da Grafipel.

sábado, 15 de novembro de 2008

Lourenço Mutarelli

Lourenço Mutarelli escreveu algumas obras, das quais estou lendo, quase no fim já, "A arte de produzir efeito sem causa". É um livro que começa com uma sensação de que não vai dar em nada e, de repente, o leitor vê-se amarrado pelo enredo, levado pela loucura de Junior, cada vez mais angustiante.
É um labirinto previsível, mas que sempre surpreende. Como não terminei de ler, vou dar minha opinião no final desse final de semana.



Mas falei do livro só para explicar que de tão interessante e angustiante resolvi ver o filme baseado no outro livro dele: O cheiro do ralo. Um filme contundente, de difícil digestão, e que aconselho a quem quiser ver que se dispa de todos os seus preconceitos.


Um filme que as mulheres costumam não gostar, mas que não chega a ser escatológico. Um filme que critica, assim como o livro aí de cima, a miséria humana, nos seus conceitos mais interiores e mundanos. Pode ser mal interpretado, principalmente quanto à obcecação do personagem principal pela bunda de uma garçonete. Não quero trazer minhas conclusões aqui, pois cada um deve interpretar do seu jeito. Entretanto entendo que o filme inteiro é uma crítica - ou um conjunto de infinitas críticas - ao comportamento humano. Das mais diversas naturezas.


Para quem quiser, tem o trailler no endereço abaixo:




domingo, 2 de novembro de 2008

Falando em George Orwell...


Falando em A revolução dos bichos, livro de George Orwell, recomendo sua leitura.


Uma parábola interessante com crítica feroz aos regimes ditatoriais. Causando muita polêmica na época da publicação, chegou a ser usado como uma espécie de panfleto anti-comunista pelo ocidente, o que perturbou o autor, que tinha certa simpatia por esse regime, segundo dizem.

De todo modo, a leitura - ou releitura - vale realmente a pena, eis que a história continua atual e pode ser comparada a muitos governos e comportamentos por aí.

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

O escritório

Leitura recomendada para esse final de semana:




Nas melhores livrarias.