Bacafá

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quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Arquivos da ditadura.

Os tempos eram outros. Não havia super-sistemas de captação de som e imagem. Super-câmeras ou super-gravadores. Nossa vida não era mapeada pelos nossos acessos no mundo virtual da internet. As informações não jorravam como hoje e mal tínhamos noção do que acontecia na cidade vizinha, quanto mais do outro lado do mundo.


Mas o Grande Irmão estava por perto...


As ditaduras mundo afora sempre têm seus meios para conseguir as informações necessárias dos seus suspeitos ou dos considerados reacionários de plantão. E no Brasil não foi diferente. O DOPS, Departamento de Ordem Pública de São Paulto era tão temido quanto bem informado. Entre 1924 e 1983 arremalhou dados de pessoas que pudesse atentar contra os bons costumes e à moral (ou pode-se ler "contra quem está no poder"), em perseguições muitas vezes não tão evidentes. Qualquer pessoa poderia estar na mira do DOPS.


Agora os arquivos foram abertos no mundo virtual. Pode-se ver todas as informações acumuladas pelo departamento. É algo impressionante. São 184 mil fichas policiais!!


Tudo pode ser consultado no site do Projeto Integrado Arquivo Público do Estado e Universidade de São Paulo (Proin).


Um destaque é o prontuário de Monteiro Lobato, como se percebe com a cópia aí do lado.

Segundo a coordenadora do Proin, Maria Luiza Tucci Carneiro, professora do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo (USP), “No momento em que o cidadão ficava sob suspeita, a polícia abria um prontuário e, após a detenção, produzia a ficha de qualificação, que trazia a fotografia de frente e de perfil – uma das categorias de documentos que hoje alimentam o banco de iconogravia idealizado por Kossoy. Além da fotografia policial e as fotos confiscadas, temos um amplo universo documental acumulado ao longo dos anos. Alguns cidadãos suspeitos chegaram a ter o cotidiano vigiado por 15 anos consecutivos”.

É bom revermos e avaliarmos o passado de um país para que possamos progredir tendo em vista que justiça social não se consegue sem democracia e liberdade de expressão.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Brasil: lixão hi-tech.

"Em 2006, o Brasil foi parte do lixão high-tech da Califórnia. De acordo com dados obtidos pela Folha no DTSC (sigla em inglês para Departamento de Controle de Substâncias Tóxicas da Califórnia), 1.190 toneladas de lixo eletrônico foram enviadas do Estado norte-americano ao Brasil naquele ano.

Os dados indicam que o Brasil pode ter ignorado a Convenção da Basileia, um tratado internacional do qual o país faz parte e que tenta combater o trânsito internacional de resíduos perigosos dos países desenvolvidos para nações em desenvolvimento.

O lixo eletrônico --televisores, computadores, celulares e outros aparelhos eletrônicos descartados para o uso-- é considerado perigoso, pois possui em sua composição substâncias tóxicas como mercúrio e chumbo.

Televisores e monitores de computador, por exemplo, possuem de 20% a 25% de chumbo em sua composição."



Fonte: Jornal Folha de São Paulo: http://www1.folha.uol.com.br/folha/informatica/ult124u500301.shtml

sábado, 31 de janeiro de 2009

Grupo RBS na mira do MPF

A Folha publicou na sua edição de terça-feira uma notícia que merece ser reproduzida. O texto, assinado por Pablo Solano, da Agência Folha, informa que o Ministério Público Federal de Santa Catarina quer anular a venda do jornal A Notícia, de Joinville, para o grupo RBS.

Eis o texto na íntegra:

"O Ministério Público Federal em Santa Catarina ingressou com ação civil pública para anular a venda do jornal "A Notícia", de Joinville, para o grupo RBS. Segundo a Procuradoria, a RBS se tornou dona de quatro diários catarinenses. A ação quer ainda obrigar a RBS a vender 4 de suas 6 emissoras de TV em SC. O Cade (Conselho de Defesa Econômica), que autorizou a venda, também vai responder ao processo, assim como o ex-controlador do jornal, Moacir Thomazi. A RBS é acusada de obrigar distribuidores e vendedores de jornais a não comercializarem publicações de outras empresas. A RBS diz que "todas as operações e veículos do grupo em Santa Catarina atendem minuciosamente às especificações legais". Thomazi afirma que todas as questões jurídicas do negócio são de responsabilidade do comprador".

Essa informação não é novidade cá em Santa Catarina. O fato é que, desde que A Notícia, tradicional jornal de Joinville, foi vendido há cerca de dois anos, ficou evidente que o grupo RBS se tornou o dono quase que absoluto da mídia (jornais, rádios e emissoras de televisão) cá no sul.

Em Florianópolis, há o jornal Notícias do Dia, que ainda resiste bravamente nessa disputa por leitores, mas tem pouquíssima influência. Os quatro diários catarinenses são do Grupo RBS. Há ainda as emissoras de rádio - Itapema, CBN, Atlântida FM, a TVCOM, a RBS/TV, mais as filiais no interior do Estado.

Com esse monopólio quem perde são os leitores e nós, jornalistas. Os leitores porque ficam sem opção, sem escolha. As notíciais - muitas - são publicadas sem a cuidadosa apuração dos fatos, deixando visível o comprometimento com os fortes grupos empresariais, com os poderes estaduais, municipais, com o legislativo...

E os profissionais da mídia porque fazem matérias para os jornais que são aproveitadas nas rádios, nas emissoras de televisão e, temendo o desemprego, se submetem a serem tristemente explorados. É claro que há as exceções de sempre. E, se há um domínio quase total do Grupo RBS, os cursos de jornalismo proliferam (até bem pouco tempo havia dez faculdades de jornalismo em todo o Estado). Ou seja, há muitos profissionais recem formados dispostos a pegarem o primeiro emprego e, com escassas opções, se submetem aos pesados esquemas do Grupo RBS.

Fonte: Balaio de siri - http://balaiodesiri.blogspot.com/2009/01/rbs-na-mira-do-ministrio-pblico.html ou http://balaiodesiri.blogspot.com/

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Quando a omissão (da Rede Globo) vale ouro.

Texto de Urariano Mota.

Fonte: Observatório da Imprensa - http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=513IMQ007 - Reproduzido do Direto da Redação, 19/11/2008.

Para o acontecido na segunda-feira (17/11), qualquer apresentador de telejornais poderia ter anunciado: "Tiros na Bolsa". Ou feito uma chamada de maneira mais extensa, evitando assim uma ambigüidade:

"Operador tenta suicídio durante pregão da Bolsa de Mercadorias e Futuro".

E depois do anúncio, entraria no corpo da notícia:

"O operador de pregão da corretora Itaú Paulo Sérgio Silva, de 36 anos, tentou suicídio hoje, pouco depois das três e meia da tarde. No meio do pregão, ele disparou um tiro contra o próprio peito. Paulo Sérgio foi socorrido imediatamente no ambulatório da Bolsa e transferido para a Santa Casa de São Paulo."

Isso feito, viriam imagens da Bolsa, e de operadores transtornados, enquanto o apresentador narraria:

"Segundo colegas, Paulo Sérgio falou ao celular com a esposa e os filhos minutos antes de disparar a arma. Uma testemunha, que não quis se identificar, declarou que ele elogiou os filhos, como numa despedida."

"Profundo respeito"

Corte para a imagem de um repórter, em frente ao prédio da Bolsa:

"Até o encerramento do pregão, o clima era de mal-estar e muitos estavam deprimidos. Funcionários da Bolsa e das corretoras saíam do prédio para fumar com o semblante fechado. A maioria descrevia com reticência a tarde de tensão. Alguns receberam ordem das corretoras em que trabalham para não comentar o incidente. Ainda assim, um deles informou que o operador é casado e tem quatro filhos, com idades entre 14 e 4 anos. Paulo Sérgio estaria com receio de ser demitido por conta da fusão do Itaú com o Unibanco. Ele havia comprado uma casa a prestação."

Corte para as declarações e imagens do presidente do Sindicato dos Trabalhadores do Mercado de Capitais, Márcio Myeza:

"Duas horas antes da tentativa de suicídio, ele me procurou. E me disse que um amigo dele havia se matado. Ele queria saber os direitos da família nesses casos. Respondi que a família deveria procurar um advogado."

Volta para o apresentador, que lê, com os olhos no teleprompter:

"O presidente do sindicato disse ter notado que o colega estava `ansioso´, mas nada que sinalizasse a tentativa de suicídio."

E com a câmera no segundo apresentador:

"A assessoria de imprensa do Itaú informou, por meio de nota, que está dando total assistência ao funcionário e a seus familiares. A assessoria do Itaú declarou, abre aspas: em profundo respeito ao ser humano, não comentaremos o fato. Fecha aspas."

Simpáticos, esses bancos

Todas as linhas entre aspas escritas até aqui são a expressão da verdade: de fato, um operador da Bolsa de Mercadorias e Futuros, na última segunda-feira, meteu bala no próprio peito, em pleno pregão da tarde. De fato, ele temia pela sorte da família, a partir da fusão dos bancos Itaú e Unibanco. De fato, sabe-se que onde há reunião de duas empresas, os empregados não se somam. Subtraem-se, sempre, no processo conhecido como racionalização de atividades. Até aí foi a verdade.

As frases que antecedem as aspas são pura invenção poética porque a notícia não apareceu nos telejornais brasileiros. Ou, pelo menos, não apareceu nos telejornais da Rede Globo, com certeza. E notem a sucessão e crescimento de esquisitices sem notícia: se é um escândalo um suicídio público, se é um escândalo um suicídio em plena sessão da Bolsa e se é escândalo um tiro em um templo da economia em tempos de crise, o que dizer da ocultação da notícia, com a cara mais maquiada que o cinismo permite?

O que seria um escândalo, sob qualquer critério, gerou um grande e pesado silêncio. Mas há razões claras para isso, que podem ser vistas nos intervalos e abertura do Jornal Nacional: o patrocínio do noticiário pertence ao Banco Itaú. O operador era, se não morreu, empregado do banco. Como os telespectadores do Brasil poderiam ter uma notícia que mostrasse um mundo brutal, feroz, de quem promete os valores mais ternos, de amor à família, nos comerciais?

No artigo "Globo e censura, tudo a ver", chamávamos a atenção para uma comunicação censurada do Sindicato dos Bancários porque os anúncios do Itaú e Unibanco, em rede nacional, bem pagos, não permitiam tal liberalidade. O que dizer agora, quando os dois bancos se unem? Os bancos brasileiros não são apenas os mais lucrativos de toda a Terra, em toda a história. Eles são muito mais. São até editores do que você, leitor, pode ou não pode ver na televisão. Simpáticos, esses bancos. Eles não querem vê-lo preocupado com homens que atentam contra a própria vida em um pregão de uma segunda-feira à tarde.

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Valem alguns comentários:

Há que se considerar o poderio econômico interferindo nas pautas dos jornais, quaisquer que sejam. Mas isso, por si só, não leva à conclusão de que toda omissão decorre de tal inteferência. Incompetência jornalística e linha editorial também fazem os nossos informativos diários, televisivos ou não, sabotarem notícias importantes ou diferentes.

Esse caso específico daria, com base num drama pessoal, infelizmente, um bom gancho para uma matéria sobre a preocupação do desemprego nas grandes fusões, podendo, inclusive, trazer outros exemplos nacionais e internacionais para os telespectadores.

Claro, tudo uma questão de ponto de vista. De quem vê e de quem paga. Eu não pago, logo, não escolho as matérias que vão ao ar.

Há, ainda, o argumento de que há uma espécie de consenso que suicídios não devam ser exaltados na televisão. Não sei se é verdadeiro ou falacioso, mas também é uma possibilidade.

O que de fato vemos, contudo, é que as informações que nos chegam pela mídia comum normalmente são parciais ou limitadas. E a internet abriu um importante caminho para uma discussão mais ampla sobre o assunto.

sábado, 22 de novembro de 2008

"Nós nos consideramos heróis"

Em uma reportagem narrada na primeira pessoa, o Jornal The Guardian traz a visão dos piratas do pacífico por eles próprios. O pirata somali Asad 'Booyah' Abdulahi, de 42 anos, explica suas razões para o exercício de sua atividade. No fundo, e talvez sem conhecer o personagem da literatura, sente-se um Robin Hood dos mares. É um ex-pescador que não conseguia ganhar a vida por conta das grandes embarcações estrangeiras no litoral da Somália que não permitiam uma disputa justa com os pequenos trabalhadores. Assim, iniciou sua vida de pirata em 1998 e seu primeiro butim rendeu 300 mil dólares ao grupo. Ele destaca que parte do valor vai para o financiador da operação e o restante é dividido entre os piratas. Eles dão prioridade aos navios europeus por resultarem em resgates mais valiosos.
Afirma que não fazem mal aos tripulantes dos barcos seqüestrados e que não considera sua atividade criminosa e, sim, como uma espécie de pedágio por não terem um governo central organizado na Somália controlando os seus mares.
A reportagem completa pode ser lida no The Guardian: http://www.guardian.co.uk/world/2008/nov/22/piracy-somalia
Os piratas estão se oranizando cada vez melhor. Unem-se quando há a necessidade de um ataque maior ou para proteger o resultado de um seqüestro muito grande. Nessa semana os piratas somalis exigiram um resgate de US$ 25 milhões para devolver o superpetroleiro saudita Sirius Star.

Calcula-se que nos últimos doze meses os piratas no Mar da Arábia e no Golfo de Áden (região de atividade do pirata acima nominado) faturaram pelo menos 150 milhões de dólares em resgates.

De acordo com o Escritório Marítimo Internacional (BMI), 94 navios foram atacados por piratas somalis desde janeiro. Dezessete ainda estão em poder deles.


As fotos deste texto são de Veronique de Viguerie (The Guardian), que passou um tempo com o principal grupo de piratas que opera na costa da Somália. Na primeira, alguns desses piratas, de um grupo de aproximadamente 350. Na segunda, a vista de uma praia, onde se vê um navio japonês seqüestrado.