Bacafá

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quinta-feira, 3 de maio de 2012

Notícias estapafúrdias.

Sempre houve e sempre haverá. Notícias estapafúrdias não pela forma como foram retratadas pelo jornalista ou pelo editor, mas pelo seu conteúdo mesmo. Mais do que estranhas, notícias que espantam, que assombram, que nos fazem perguntar “como isso é possível?” ou exclamar “a que ponto chegamos!!”.

Não falo aqui, repito, de manchetes bizarras como “Nova terapia traz esperanças àqueles que morrem de câncer a cada ano” ou  “A vítima foi estrangulada a golpes de facão” ou “Ela contraiu a doença na época que ainda estava viva”, entre tantas outras.
Falo daquelas notícias que depois de um primeiro susto ou mesmo de um sinal de riso nos fazem ficar tristes. Daquelas que nos fazem questionar se tudo o que fazemos ou acreditamos sobre o certo e o errado tem algum valor, no final das contas.

Algumas que li recentemente nos sites ou blogs desse mar quase infinito que é a internet:
Vaticano teria recebido mais de R$ 1 milhão para enterrar mafioso em basílica”. Por questões políticas e econômicas, segundo a matéria, o Vaticano teria se sujeitado a enterrar o mafioso Enrico De Pedis, assassinado, ao lado de antigos papas, na década de 1990.

Em primeiro lugar, eu não sei o que tinha o cardeal responsável na cabeça para permitir algo desta natureza (e não consigo acreditar que um Papa se daria a este desplante, por mais que não acredite em papas). Em segundo lugar, não sei o que pensavam o tal gangster ou seus herdeiros com um enterro ao lado de figuras ditas santas. Que a santidade fluiria por osmose post mortem? Ou que esse seria o verdadeiro espírito de se comprar um lugarzinho no céu? Não sei.
Outra notícia pecaminosa.

“Santur dá R$ 800 mil para RBS para participação no show de Paul McCartney”.  Ai, ai. Oitocentos mil reais para um estande (ou seria camarote? Não sei, não estive lá) no show do eterno Beatle. Nada mal. Isso é o que eu chamo de promover a cultura. Pela natureza do espetáculo, a lei permite essa transferência de riquezas sem licitação. Não foi ilegal, portanto. Talvez imoral. Não sei se os leitores concordam comigo.
Quantos shows locais, artistas barriga-verdes poderiam ser prestigiados com tal altíssima verba pública (sim; sua, minha, nossa)? Ou quanta outra forma de divulgação para o nosso turismo poderia ser veiculada vendendo nossa imagem, como um dos mais belos Estados – se não o mais belo – do país?
A gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte, já dizia a música dos Titãs. A gente não quer só bebida, a gente quer saída para qualquer parte. Ou seja, precisamos de diversão e arte, sim!! Sem dúvida. Mas precisamos de professores bem remunerados, estradas transitáveis, segurança pública a contento e saúde pública decente. Tudo junto, e com as devidas prioridades.

Só por curiosidade, não sei quanto aos demais leitores, mas eu gostaria de saber qual a opinião pública dos nossos dois representantes na casa legislativa estadual a respeito deste “investimento” da Santur.
A bem da realidade, as notícias que eu realmente gostaria de ler estão um pouco além da atual realidade. Algo como “Magistério e polícia estão entre as profissões mais sonhadas pelos jovens porque são reconhecidas, bem remuneradas e bem aparelhadas”. Ou “Deputado pego com a mão na botija pratica o harakiri pela vergonha em rede nacional”.

Talvez um dia.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Nossos governantes assassinos.

Loucuras no trânsito é o que mais se vê por aí. Na realidade, acredito que loucura não seja a palavra mais adequada, já que significa insanidade mental, demência. Pelo menos não do ponto de vista médico. Afinal, os tais motoristas sabem muito bem o que estão fazendo.

O problema destes candidatos a marginais não é de loucura. É de irresponsabilidade mesmo. Da mais grave, incompreensível e absurda.

Vou dar um simples exemplo que presenciei um tanto aterrorizado e indignado nesta segunda-feira (anteontem), por volta de 18h40. Estava indo para a faculdade de Guaramirim e após a ponte entre Jaraguá do Sul e Guaramirim, na BR 280, o trânsito estava naturalmente lento, por causa daquele afunilamento.

Pois bem. Qual não foi a minha surpresa quando vejo um imbecil (e já peço desculpas pelo tom da palavra, mas não encontro outra menos agressiva) tirando o seu Vectra novo e branco para o acostamento e por ali mesmo ultrapassando os demais veículos na fila, quase chegando ao meu lado. Pensem comigo: um horário de escurecimento e muito movimento. Mais do que isso, muito movimento nos acostamentos, com pessoas a pé e de bicicleta indo e vindo em todas as direções. O dito parou, apesar da velocidade incompatível que imprimia, justamente por causa de alguns ciclistas. Confesso que pensei que iria presenciar uma tragédia naquela hora.

Esse caso específico pode até não ser culpa direta dos nossos assassinos governantes. Contudo, outros exemplos há em que não consigo não imaginar a responsabilidade dos nossos políticos ante sua inércia e seu descaso. Continuemos na BR 280, trecho entre a ponte Jaraguá do Sul – Guaramirim e o trevo de Guaramirim – Massaranduba. Neste curto espaço de estrada é possível ver as mais incríveis barberagens e irresponsabilidades. Penso que só por sorte não há acidentes graves diários por ali.

E o governo é tão irresponsável que em uma curva, num trecho absolutamente movimentado, em plena rodovia federal, entre duas cidades separadas por uma ponte, há uma faixa de pedestres! Uma passarela nem pensar. Uma faixa de pedestres mesmo, para os pedestres fazerem uma loteria diária de suas vidas. Isso sem falar naquela rua à esquerda logo após a ponte (quando se vai no sentido Jaraguá do Sul – Guaramirim). Para adentrar na mesma, alguns motoristas pensam que estão andando no centro da cidade. Simplesmente entram!! Cruzam na frente do fluxo que vem do outro lado, atrapalham os veículos que vem atrás e não estão preocupados com nada. Quando muito, dão sinal da convergência. Quando muito.

Mortes já aconteceram e vão continuar acontecendo. Culpa de quem? Dos nossos governantes assassinos por inércia. E não é só dos Presidentes da República que já passaram por Brasília, não. A responsabilidade é dos prefeitos das duas cidades. Dos atuais e dos inertes anteriores. A responsabilidade é do Governador do Estado. Deste e dos outros. E dos vereadores, deputados e senadores. Pena que, ao contrário dos macacos sábios do provérbio japonês (aqueles que não vêem o mal, não escutam o mal e não falam o mal), estes nossos políticos podem ser chamados de trogloditas cegos, surdos e mudos por pura falta de vontade de buscar as soluções necessárias.

E digo que há solução imediata para prevenir o pior nesse caso.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

O escambau.

Semanas atrás recebi um e-mail (mais de um, na realidade) cujo título era mais ou menos assim “Você é o escambau”. Contava, o texto, não exatamente com as palavras que narro agora, que uma determinada pessoa (que aparentemente assinava a missiva) estava indignada porque um magistrado não aceitou ser chamado, em gabinete, de “você”. E mais, que o dito juiz de Direito ainda tinha lhe desferido um impropério: o tal “escambau”. Mais exatamente um “você é o escambau”.

O emitente do e-mail original – não os que recebi, que já eram replicados – parecia até letrado, pois discorreu sobre a origem etimológica da palavra “você”, que, segundo ele, está associada à expressão antiga “Vossa Mercê”. E pesquisou, também, a origem da palavra “escambau”, a qual, segundo essa pessoa, não seria possível precisar.

O intelocutor virtual estava indignado, embora em nenhum momento tenha sido indelicado ou mal educado, com a reação do magistrado ao ser chamado, como já falei, de “você”. “Você é o escambau” teria sido a resposta.

Um conselheiro antigo, chamado Jack, diria para irmos por partes. Vou tentar seguir tão sábia orientação, dividindo meus pensamentos em duas partes.

Na primera tenho que dizer que procurei nos seis dicionários (mais dois eletrônicos) que tenho em casa – alguns bem antigos, é verdade – e não encontrei a palavra “escambau”. Mas que a palavra existe, disso não tenho dúvida. Já a ouvi. Já a falei. E se está na boca do povo, existe. Contrariado conversei com o “todo-poderoso”. E o Google me levou a Sérgio Rodrigues, da Coluna Todoprosa. Fiquei ainda mais frustrado quando descobri que a palavra está no Houaiss, o dicionário que está na casa dos meus pais! Pode significar tanto “um monte de coisas” quanto ser um eufemismo de palavrão. Lendo o texto de Sérgio Rodrigues, tive a sensação que foi da mesma fonte que bebeu o indignado autor originário do e-mail.

Pois bem. Dadas as circunstâncias parece que o “escambau” do e-mail foi usado mais como uma retaliação (ok, outro eufemismo) do que como “Você é um monte de coisas”. Vá lá, eu não estava presente para saber se isso aconteceu ou não, mas não é coisa que se espera ouvir de um magistrado em um gabinete. Na realidade, não sei, também, se o dito autor do texto o realmente é.

Assim, chego ao segundo ponto. Pronomes de tratamento. Aprendi lá no primeiro grau, agora ensino fundamental, que “você” é utilizado para tratamento íntimo ou familiar. Nunca tratei meu tio desembargador ou meu padrinho juiz de “você” dentro de um fórum. Se bobear, nem fora, por simples questão de respeito. Aprendi, lá no primeiro grau, que magistrado se trata de “excelência” ou “meritíssimo”.

Aprendi, também, e aí foi em casa mesmo, que com intimidade se trata aqueles com quem se tem intimidade. E respeitosamente a todos. Quem me conhece sabe que não faço questão alguma de ser tratado por “doutor”. Contudo, até hoje trato pessoas que não conheço ou conheço pouco por “senhor” ou “senhora”, ainda que sejam mais novos do que eu, enquanto não me derem sinal de permitirem outro tratamento.

Vou mais longe. Penso que muito do desrespeito que parcela da molecada alimenta hoje decorre da falta da imposição de certas formalidades. Não é frescura. É respeito, puro e simples. É educação na sua vertente mais natural.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Pais, não vos desesperais!

“Oh! Cride, fala pra mãe/ Que eu nunca li num livro/ Que o espirro/ Fosse um vírus sem cura/.../ A mãe diz pra eu fazer/ Alguma coisa/ Mas eu não faço nada/ A luz do sol me incomoda/ Então deixa/ A cortina fechada/ É que a televisão/ Me deixou burro/ Muito burro demais/ E agora eu vivo/ Dentro dessa jaula/ Junto dos animais.../ Oh! Cride, fala pra mãe/ Que tudo que a antena captar/ Meu coração captura/”.

A letra acima poderia ser o drama de qualquer pai ou mãe dos dias de hoje, mas é da música “Televisão”, dos Titãs, uma das mais tocadas no longínquo 1985. Estourou em todas as rádios e programas de... televisão.

E o que se vê ali? O ritual de qualquer adolescente pseudo-rebelde. Rebeldes sem causa, como diria outro hit dos anos 80, da banda Ultraje a Rigor. Preguiçosos para pegar um bom livro e ler, não apenas folhear. Não levar a sério as coisas que as mães pedem para fazer. Ficar no escuro, no quarto, com as cortinas fechadas.

Naquele tempo pré-internet, a rapaziada ficava na frente da TV emburrecendo. E só havia quatro ou cinco canais. Ou então com os walkmans(discmans era para poucos) presos na cintura e os fones de ouvido grudados nas orelhas ao som de Titãs, Ultraje, Blitz, Paralamas, Tokyo, Biquini Cavadão, Kid Abelha, Plebe Rude, Cascaveletes, Legião Urbana e tantas outras bandas, só para ficar nas nacionais.

Hoje, o que se vê? Rebeldes com menos causas ainda. Preguiçosos de uma boa leitura. Teimosos com seus pais. Vidrados na televisão. Mas agora com o som e a internet ligados ao mesmo tempo. É o novo significado do “três em um”. E se saírem de casa, estão com seus i-pods ou celulares tocando música – e às vezes surpreendentemente músicas dos anos 80 do século passado!

E o que se pode esperar desses adolescentes? Provavelmente o mesmo que os pais dos adolescentes dos anos 80 e o mesmo que os pais dos adolescentes dos anos 70 e 60 e 50 esperavam.

Quanta coisa se criou e quantas coisas se criam em cada vez menos tempo. Como a evolução se dá em horas de ideias que antes eram materializadas em dias e ainda antes em meses e em anos!

Parece-me que não estamos ficando mais burros, apesar do que alguns apregoam por aí. Parece-me que estamos, de fato, evoluindo. E, talvez por isso, estamos ficando cada vez mais exigentes. Como pais, como pessoas mais velhas, como pessoas que se acham mais experientes, como pessoas que pensam que sabem mais do que os mais novos.

Claro, a humanidade não é perfeita. Perdemos alguma qualidade média quando se trata de cultura, no meu ponto de vista. Nivelamos, infelizmente, por baixo. Começamos a achar que Faustão e Gugu são programas informativos e que esse tal de sertanejo universitário se parece com moda de viola ou que esse chorogode é o nosso samba de raiz. Mas havia coisas estranhas no passado também, como Chacrinha, Show do Bolinha e outros programas do gênero. A diferença, possivelmente, é que os dos velhos tempos não se achavam paladinos de nada e nem vinham com papo sério para assuntos ridículos. Apenas queriam divertir a massa.

Esquecendo esse nivelamento barato e criminoso por um instante, porém, temos coisas fantásticas. Não sabemos exatamente no que isso vai dar, mas para um adolescente urbano de 15 anos hoje é praticamente impossível imaginar um mundo sem computador, internet e celular.

Para muitos adultos também.



quarta-feira, 4 de abril de 2012

A espada de Demóstenes.

Reza uma lenda da Grécia antiga que um cortesão vivia bajulando o tirano Dionísio, o Velho. Passava seu tempo falando que Dionísio era um grande homem, afortunado e poderoso. O nome do bajulador era Dâmocles. E a história era contada pelos grandes oradores na Roma antiga.

Ocorre que certo dia, de tanto ouvir o cortesão dizer que ele era o homem mais feliz do mundo por suas riquezas, o tirano ofereceu-se para trocar de papel com o lambe-botas. Os olhos de Dâmocles brilharam, e então passou a ser servido com os melhores vinhos e as melhores comidas pelos mais bonitos escravos e escravas, nas mais belas e confortáveis acomodações. E ele se refestelava no luxo que lhe era proporcionado por Dionísio.

Curtindo sua alegria e seus momentos de pompa e suntuosidade, repentinamente Dâmocles percebeu que sobre sua cabeça havia uma espada pendurada apenas por um finíssimo fio. Todo seu prazer e entusiamo foi literalmente engolido a seco. De um momento para outro, as raras comidas, os caríssimos vinhos, as macias almofadas, as cheirosas exóticas flores, os solícitos escravos ficaram em segundo plano e não mais tinham a mesma importância.

Dâmocles pensou em sair rapidamente de baixo daquela espada, cujo fio que a sustentava poderia arrebentar, causando um ferimento fatal em sua cabeça. Entretanto, o medo lhe tomou conta. Pensou que se se movimentasse poderia ele próprio causar o rompimento do fio e sua consequentemente morte. Seu êxtase foi trocado pela sua insegurança e preocupação.

Dionísio, então, que de bobo não tinha nada, explicou a seu amigo que era assim que se sentia dia após dia, justamente por conta da riqueza e poder que possuía. A todo momento preocupava-se de ser traído, envenenado, alvo de injúrias ou coisas que o valham. Dâmocles não quis mais o poder e a riqueza. Dizem que nunca mais sequer pensou em trocar de lugar com os poderosos.

E a expressão “a espada de Dâmocles” passou, assim, a significar um perigo iminente ou a preocupação que certos poderes, benefícios e vantagens nos trazem.

Pois bem. Lembrei dessa expressão quando soube das notícias envolvendo o senador goiano Demóstenes Torres. Não que algum dia eu tivesse acreditado nessa aura que ele próprio criou para si de paladino da justiça e defensor da moral política.

Lembrei-me de Demóstenes, o original, um político grego conhecido pela sua oratória, que inspirou e inspira muitos ainda. O Demóstenes da cidade goiana de Anicuns, porém, mostrou-se um estafeta de bicheiro cuja retórica cingiu-se a querer chamar a atenção por uma suposta defesa da hombridade política. O político que falava aos quatro ventos mal dos desvios de Brasília, utilizando o púpito do Senado Federal como trampolim midiático, quedou pelos mesmos atos que condenou. Quedou pelos mesmos atos que hipocritamente condenou.

Demóstenes, o estelionatário da opinião pública, não perdeu somente peso. Perdeu publicamente sua honra. Não sei se teve tempo de ganhar o tal milhão que o bicheiro segurava. O fio que segurava a espada arrebentou.

Lamentável ver senador – ou juiz – amigo íntimo de contraventor preso.

Os gregos têm muito a nos ensinar. Alguns não aprendem. No final descobrimos mesmo que a política se tornou uma verdadeira caixa de Pandora, dona das piores surpresas.