Bacafá

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sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

O estranho caso do besouro gigante.

Tirando do baú virtual, um dos Contos de Quinta. Se não o mais, um dos mais surreais ou extraordinários (no sentido de fora do comum mesmo) do repertório. Originalmente foi publicado em duas partes, em duas quintas seguidas. Hoje vai tudo de uma vez só. Ao final, um pouco de música, com Flight of the bumblebee ou, simplesmente, O vôo do besouro, em duas versões. A primeira, de Al Hirt, no filme Kill Bill, e a segunda da London Cello Orchestra.

O estranho caso do besouro gigante.

Certa noite, caminhava o cidadão pelas ruas vazias, escuras e quentes da silenciosa cidade. Prédios margeando seus passos, casas com as luzes acesas algumas, apagadas outras. Nem os cães ladravam. O estranho silêncio acompanhava o andar do cidadão. Apenas o barulho dos seus próprios sapatos, já gastos, embora limpos. O mesmo não se poderia falar das ruas. Aqui e ali as lâmpadas dos postes piscavam. Outras estavam completamente apagadas, provavelmente queimadas. As restantes emitindo uma luz fraca, amarelada. Nestas, muitos insetos fazendo suas danças e seus malabarismos no entorno.

O cidadão apenas andava, sem destino. Pensava na vida. Às vezes conseguia pensar em nada. Limpava a mente. Entretanto, algo chamou sua atenção para a próxima esquina. Caminhou lentamente até lá, dobrou a esquina e ficou olhando. Surpreso. Analisou vagarosamente, detalhadamente, a estranha criatura a sua frente.

Parecia um monstro. Um monstruoso besouro, para ser mais exato. Seis patas enormes e peludas, todo preto, com uns riscos vermelhos. Ficou atônito na frente do inseto. Mudo, quase sem respirar. O besouro, por sua vez, concentrou-se no cidadão. Olhava, também. Praticamente parado, também. Apenas mexendo as antenas. O bicho deu um passo lento. O cidadão recuou. Sem falar nada. Não porque não queria, mas simplesmente porque não conseguia. Teve a intenção de gritar, mas não conseguiu. Fechou os olhos.

Abriu somente quando sentiu um bafo em seu rosto. O besouro estava praticamente enconstado em seu nariz. O cidadão não sabia se se mantinha congelado ou se saía correndo. Por medo ficou parado mesmo. O monstro resolveu cutucar o cidadão. De leve, sem machucar, como se estivesse dando sinais de boas intenções. O cidadão respirava profunda e vagarosamente. As gotas de suor já escorriam por sua testa. Suor frio que igualmente lhe molhavam as costas.

Deu um passo para trás. O inseto se assustou e deu uns dois ou três passos também para trás, levantando-se um pouco, o que o fez parecer ainda mais gigante do que já era. O cidadão fechou os olhos e se franziu, esperando o pior.

Durante alguns segundos nenhum dos dois se mexeu. Enquanto o menor continuava paralisado, o inseto foi se reaproximando. Encostou novamente no cidadão, como se quisesse mostrar alguma coisa. Como se quisesse se comunicar. Foi o empurrando devagar. Saíram do beco onde estavam e foram caminhando. No inicio o cidadão estava andando de costas. Depois andaram lado a lado.

Quando o cidadão se deu conta já estava em frente a sua casa. Teve uma estranha sensação de que se comunicava mentalmente com o bizarro bicho. Abriu o portão rangente e entrou na frente. O inseto passou um pouco pelo espaço aberto, um pouco por cima do pequeno muro de tijolos à vista.

Ao subir os quatro degraus que davam para a varanda de sua casa, o cidadão se virou e ficou olhando o monstro. Voltou os olhos para a porta e novamente para o bicho. Calculou mentalmente o tamanho do inseto e imaginou se passaria pela porta. Entrou em casa, acendeu as luzes e ficou esperando. O besouro gigante foi se aproximando aos poucos, espremeu-se pela porta e entrou, derrubando alguns enfeites que estavam na mesa na parede ao lado da porta.

Depois de olhar para os cacos, o bicho se acomodou em um dos sofás da sala. O maior. O cidadão pegou uma cerveja na cozinha e voltou pra sala, sentando em uma poltrona de frente para o esquisito bicho em sua esquisita posição.

- Precisamos de um nome pra você – falou em voz moderada.

O inseto continuou olhando para o cidadão bebendo cerveja.

- Mas... que nome? Rubro-negro? Gigante? Zé? Não, não... não combinam com você. Você é muito bizarro... É isso, hehe... acho que é isso mesmo. Bizarro. Seu nome, daqui em diante, é Bizarro.

O cidadão pegou uma tigela de plástico, encheu de cerveja e deu para o Bizarro beber, enquanto entornava a sua segunda garrafa. Ligou a televisão e ficaram vendo aquelas séries americanas antigas enlatadas. Parecia que o besouro ria junto com o cidadão.

No outro dia, ao tempo que o cidadão cortava a grama do jardim de sua casa, Bizarro cuidava, do seu jeito, dos canteiros e dos outros insetos. Na hora do almoço assaram carne na churrasqueira nos fundos da casa e beberam mais cerveja. Falavam pouco entre si, mas havia uma estranha comunicação telepática.

No final do dia o quintal estava perfeito. Jogaram um pouco de futebol no gramado cortado. Depois de mais cerveja foram dormir. O monstro dormia na rua, numa tenda improvisada pelos dois. Dentro de casa já havia quebrado muitas peças e louças.

Quando acordou, o cidadão sentiu um cheiro estranho. Sua cama toda molhada. As paredes manchadas, respingadas. Tudo vermelho. O lençol ensopado no chão, em direção à porta. Uma dor lancinante. Olhou para baixo e não viu suas pernas. Apenas dois tocos ensangüentados e ainda sangrando, com os ossos despedaçados e a carne triturada. Só conseguiu gritar desesperadamente.


quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Contos de quinta (verão): O corredor.

Todos os dias ele corria na areia. Acordava cedo, fazia um desjejum leve, preparava o par de tênis, e ia para a praia. Quando chegava o silêncio era quase absoluto, quebrado apenas pelas ondas do mar e um ou outro grito dos pescadores adiante. Normalmente, nem o sol estava totalmente despontado. O maral fazia-o franzir de vez em quando, assim como o suor correndo pelas têmporas.

A maresia, meio gosto, meio cheiro, era um de seus estimulantes. Seu ritmo sempre era constante, e para isso corria sempre na parte dura da areia, tentando evitar a água que às vezes procurava beliscá-lo. Mas não se importava com os respingos que lhe alcançavam.

Não falhava um dia. Poderia ser feriado, final de semana, estar quente, frio ou chovendo. Poderia até ter tomado um porre na noite anterior, lá estava ele correndo na manhã seguinte. Todos se espantavam com seu empenho, sua dedicação, sua vontade. Os anos passavam, e lá estava ele correndo cedo na praia. Até os pescadores conheciam o corredor.

A inspiração maior, porém, e que não se sabe se mais alguém sabia, mais do que a maresia, mais do que o sorriso das pessoas pelas quais passava, mais do que a pele bronzeada, mais do que o físico em dia, mais do que o visual maravilhoso daquela praia, mais do que qualquer argumento sobre os benefícios deste tipo de atividade, era ela.

Assim como ele corria todas as manhãs, todas as manhãs estava ela sentada num banco incrustado nas pedras no fim da praia. Algumas vezes protegida pela sombra das árvores, outras pela brisa do mar. Todas as manhãs.

Não, não se perceberam imediatamente, como nos contos de fadas. Foram algumas corridas até os olhares se cruzarem, outras tantas para os sorrisos se abrirem. E mais um bom tempo para sentimentos mais fortes aparecerem. Agora essa era a diária e matinal motivação dele. Seu coração cedo já acelerava ao pisar seus pés calçados na areia. O dia anterior poderia ter sido um caos. A noite uma tragédia. Tudo sumia, tudo era sublevado quando dava o primeiro passo da corrida. O mundo parava por aqueles diários e ritmados seis quilômetros e meio de corrida até as pedras da ponta.

Dia após dia, semana após semana, mês após mês, ano após ano. Não falhavam as trocas de olhares, não falhavam os sorrisos largos, sinceros e apaixonados; ela sentada sempre no mesmo lugar aguardando sua chegada, ele correndo sempre em sua direção. Só lhes falta coragem.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Contos de quinta (versão verão): A tenda.

Como já é conhecido dos frequentadores destas plagas, quinta-feira costumava rolar um "Contos de quinta" pra divertir ou chatear os leitores. Alguns fizeram sucesso, outros foram muito mal falados, hehe. Abaixo, para quem não leu ou quer lembrar, a ligação para a relação dos contos. Na sequência, o primeiro da temporada. Como expliquei na terça, serão contos leves, sobre verão, praia, até eu pegar o jeito novamente. Grande abraço, boa leitura e boa sorte!!

Podem ler clicando aqui (a relação grande) e aqui (o último depois da relação).

A tenda.

Sábado de sol. Muito sol. O cidadão acorda relativamente cedo e vai com sua mulher para a praia. Duas quadras separam sua casa da areia. Como chegou antes da muvuca, escolhe um bom lugar, e arma seu guarda-sol. Arruma a cadeira da mulher, estende a toalha para ela torrar um pouquinho. Apesar do céu limpo, sem nuvens, de um belíssimo azul, ainda não está terrivelmente quente. Horário de verão tem suas vantagens.

Senta na sua cadeira, abre seu livro de autoajuda e afunda-se em regras de salvação própria. Entre um mandamento e outro, dá uma espiada sobre seus óculos nas bundas que passam caminhando. Disfarçadamente, claro, para a esposa não perceber.

O tempo passa e vão chegando casais, famílias, turmas. O silêncio inicial, rebatido apenas pelas poucas ondas, se desfaz por completo. Não se ouvem mais as ondas, inclusive. Um porcalhão aqui, outro ali. Uma criança reinenta aqui, outra ranhenta lá. E assim caminha a humanidade praiana. Todos dentro da civilidade possível. Claro, sempre passa um molequinho correndo e levantando aquela agradável areia sobre as mulheres ao sol. Invariável, assim como o é o adolescente que passa na beirinha do mar chutando a água para acertar a irmã e acerta todo mundo, menos a irmã.

A convivência tranquila e pacífica entre as famílias e seus guarda-sóis. Espaço razoável para todos, afinal. Uma água de coco para hidratar, um picolé de manga para refrescar. Claro, tem o chatinho que passa com o seu celular pendurado sabe-se lá onde, fazendo todo mundo ouvir o que ninguém quer.

Tudo corria normalmente quando, porém, chegou uma família. Uma família grande. Uma família de pai, mãe, filha, namorado da filha, filho, esposa do filho, ou vice-versa, uma netinha de uns dois anos e outro de uns cinco, tia e mais alguém não identificável. Uma família e piscininha, baldinhos, pazinhas, brinquedos diversos, bola, bolsa de neném (aquelas que a mãe carrega com todos os apetrechos dos pequenos), um cooler e um isopor. Uma família e sete cadeiras, cinco toalhas, não se sabe quantos bonés e chapéus e alguns tubos de bronzeador. Uma família e uma tenda, destas que são montadas para proteger a tropa toda do sol, dessas que só tem a parte de cima e as quatro pernas de sustentação. Branca com detalhes cinza.

O cidadão olha para a esposa que devolve o olhar. Alojou-se, a família, bem ao lado do casal. Bem na frente de outra família que tinha acesso para o mar. Não que fosse o último lugar da praia. Não. Havia muita areia para a família da tenda se apoderar. Mas tinha que ser ali. Todo mundo fez cara feia. Menos a família, que estava fazendo força para montar o barraco.

O cidadão baixa o livro e discretamente comenta com a esposa:

- Gente sem noção, hein? Tanto lugar pra se acomodar e tem que ser logo aqui. Na frente daquela família. Agora os pobres coitados vão ter que ficar contornando.
- Sem comentários – responde a mulher, concordando com o marido.
- Onde vai parar esse mundo? Cadê o respeito? Será que não se tocam? Não conseguem ver que estão atrapalhando outras pessoas?
- E ainda por cima, ficam aí, falando alto. Ninguém precisa saber que os vizinhos deles brigam, que a tia fulana tomou um porre na virada, que o cachorro fez xixi no pé da visita...
- Esse povo tá mesmo sem educação. É cada um por si e o resto que se exploda. Que se exploda. Até tirou parte do nosso sol, olha só!
- E tá esquentando esse sol, né, amor?
- Vixe, se está...

E a praia continua. O sol vai fazendo seu caminho no céu. As crianças continuam correndo e gritando. Mais um picolé, uma água gelada, um capítulo do livro, uma marquinha de biquíni...

De repente os olhares do patriarca da família da barraca e do cidadão se cruzam. O cidadão faz cara de poucos amigos. O senhor da tenda sorri e oferece uma cerveja. O cidadão recusa, que é isso, não precisa, não. E engole a própria saliva, imaginando o quanto deve estar gelada e gostosa aquela loira. O senhor insiste, argumenta mais um pouco e o cidadão acaba aceitando, pois, afinal, fica chato recusar, assim, sem por que, toda essa solicitude.

- Pegue aqui, vizinho, está gelada esta cerveja. É das boas, importada. Você vai gostar. Sente-se aqui embaixo conosco; deve estar muito quente aí fora. Aproveita. Sinta a brisa aqui na sombra. O quadrado é grande, aprochegue-se, não fique encabulado. Sua esposa também não quer vir? Mais uma cerveja? Pegue aí no cooler, fique bem à vontade.

Os minutos vão passando, o cidadão, inicialmente desconfortável, passa a curtir a mordomia, seu novo amigo, a família dele, as cervejas dele. Lá pelas tantas, depois da décima latinha:

- Bacana essa sua tenda, hein? Sabe que eu tava pensando em comprar uma. Igualzinha essa sua aqui. A gente fica com um espaço bom na praia, né? Consegue marcar o território, hehe. A mulher, se quiser pegar sol, deita um pouco mais pra fora, a cerveja fica na sombra, e é mais difícil a molecada fica jogando areia na gente quando passa correndo. Muito boa essa barraca. Passa mais uma cerveja aí, meu amigo...

E assim caminha a humanidade...

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Contos de quinta - Cigarros.


O silêncio imperava entre os dois, apesar da música alta na boate. Muita gente, muitos risos, muitas palavras desconexas perdidas, muita bebida, pouca luz. As pessoas dançavam, circulavam, acotevelavam-se, falavam.

Ele olhava para ela. O vestido preto, curto e justo e sua mente se misturavam. Ela segurava o copo com uma mistura alcóolica qualquer e também olhava para ele. Apenas os olhos conversavam.

- Quer fumar?

Ela anuiu com a cabeça e os dois saíram da boate pela porta dos fundos (ele conhecia os donos do lugar e os seguranças, que não criaram nenhum empecilho). A porta dava diretamente no estacionamento a céu aberto. Encostaram-se em um carro e ele acendeu o primeiro cigarro. O dela.

Quando foi acender o seu, viu um cara com uma jaqueta de couro e algo que parecia uma arma apontada para cima correndo na direção deles. Largou o cigarro e o isqueiro e puxou-a para baixo. Já era tarde.

- Passa a carteira.
- Calma, calma... já passo.

Ela ficou no chão, sentada abraçando as próprias pernas, imóvel, olhando pra porta do carro. Ele foi se levantando devagar. Tenso, quase sem respirar. A arma apontada para seu rosto.

- Calma, calma... sou advogado, não precisa se preocupar...
- Advogado?
- Sim.

O cara respondeu um “bom” longo e baixo e esboçou um sorriso conciliador. Ele, vendo a feição do cara, então respirou e relaxou. Os ombros até baixaram, o pescoço desenrigeceu.

Ouviu-se apenas o estouro da bala no cérebro dele, que caiu sem vida na poça d’água. Ela continuou sentada, abraçada as suas próprias pernas, imóvel, de olhos fechados.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Contos de quinta: Elevador.

Elevador.

Segunda-feira. 06h53.

- Cuidado... obrigado.

Ao sair do elevador, por aquele vão de pouco mais de sessenta centímetros, ele respirou aliviado. Na realidade aquela saída foi um tanto quanto grotesca. A cabine parada entre dois andares, resolveram tirá-lo pela parte de baixo, o que significou que ele teve literalmente que se esguichar e depois se equilibrar na escada que lhe colaram como apoio. Mas estava lá, mais tranqüilo, aspirando ar puro novamente. Sua cara estava horrível, suas roupas totalmente amarrotadas e um pouco sujas.

Segunda-feira. 04h35.

O cansaço tinha novamente tomado conta dele. Encostado no canto, dormia sem sonhar. O sonho ele tinha acordado, que alguém o tirasse dali.

Segunda-feira. 06h29.

Ele acordou com barulho de alarme. Desses que são acionados ou desligados, residenciais ou comerciais. Percebeu que já havia pessoas circulando no prédio. Apesar de todo doído, levantou-se num pulo. Começou a chamar por alguém, pedir socorro, esmurrar a porta. Uma moça ouviu e falou pra ele se tranqüilizar que já estaria chamando o zelador ou porteiro para ajudar. Ele se sentou e chorou baixinho. De alegria. De cansaço.

Sábado. 19h02.

- Tchau, Juarez. Vai ficar aí muito tempo ainda?
- Não. Só mais uma meia hora. O suficiente para terminar esse relatório para segunda-feira. Tenho festa hoje à noite e ainda vai ter um esquenta na casa de uns amigos. Abraço. Bom final de semana.
- Valeu, obrigado. Pra você também. Vê se não dorme aí em cima dessa papelada.
- Vai praquele lugar, vai.

Sábado. 21h37.

“Só vou lá no carro pegar o cigarro; aproveitar que ninguém tá aqui pra me encher o saco.”

Sábado. 21h42.

- Puta que o pariu. Que deu agora? Por que essa porra parou?

A luz foi diminuindo aos poucos. O barulho do ventilador também. Ele apertava os botões de emergência e nada. Nem estalavam, não chamavam, não apitavam, não socorriam, não piscavam, não acendiam. Nada. Berrou. Nada. Berrou de novo, mais alto agora. Silêncio.

Lembrou do celular. Procurou no bolso. Lembrou que deixou em cima da sua mesa. Lembrou que disse para os amigos que talvez não fosse à festa. Lembrou que tinha terminado há um mês com a namorada. Lembrou que seus pais estavam viajando. Lembrou que nem fala com o vizinho. Lembrou que ninguém se lembraria dele ou pelo menos não estranhariam sua ausência. Torceu para que a luz voltasse logo. Lembrou que iria encher o saco do síndico para colocar um no break gigante no prédio. Não lembrou o nome certo do sistema. Lembrou que não sabia quem era o síndico.

Sábado. 22h11.

Começou a socar as portas e as paredes do elevador.

Sábado. 22h39.

Estava afônico e com as mãos doendo. Alguns dedos sangrando.

Segunda-feira. 01h11.

Tentou mais uma vez alcançar o teto do elevador. Conseguiu apenas quebrar o forro e torcer o tornozelo direito.

Domingo. 16h35.

Acordou com o barulho de sirenes na rua. Gritaria. Gritou também. Mas ninguém lhe atendeu. Percebeu que estava com a mão molhada.

Sábado 23h58.

Ele já tinha cantado todas as músicas que sabia de cor. Percebeu que sabia muito poucas músicas. Já estava com sono. Encostou-se num canto. Tirou a blusa e tentou ajeitar como um travesseiro na parede mesmo.

Domingo. 02h49.

Acordou deitado, com as pernas dobradas. A blusa-travesseiro estava do outro lado do elevador. Acordou com sede e com vontade de fazer xixi.

Continua...

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Contos de quinta.

Em homenagem à iniciativa de Carlos Henrique Schroeder e seu projeto que virou realidade, o Festival Nacional do Conto (clique aqui para mais informações), em Jaraguá do Sul, com presença de grandes astros da literatura nacional, e que começa justamente hoje, resolvi republicar todos os meus contos de quinta.

Para acessar as histórias é só clicar nos títulos. Aos que leram e gostaram, um repeteco. Aos que nunca leram, uma oportunidade. Aos que leram e não gostaram, boa sorte!

E parabéns ao Carlos pela iniciativa e realização do Festival Nacional do Conto.

Tão longe e tão perto, de Gabriela Lopes.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Contos de quinta: Tão longe e tão perto.

Depois de um longo inverno e verão, os Contos de quinta voltam. Nesse reinício, a autoria do conto de hoje é de Gabriela Maia Lopes.

Tão longe e tão perto

O ano era 1882, interior de Minas Gerais, uma vila com casas simples, mas que tinha uma que chamava a atenção de quem ali passava: era pequena, de cor vermelho berrante, com porta e janelas simples. Adentrando a casa viam-se poucos móveis: uma cama, mesa com duas cadeiras e uma mesinha com um jarro de flores. Era meio escuro ali, pois os pedaços de pano que foram colocados como cortina não deixavam muitos raios solares passar.

Naquela casinha vivia uma jovem moça, estava sempre sozinha e de cabeça baixa, triste, pois apesar de ter sido casada e feliz um dia, foi acusada de não servir ao marido como uma boa esposa. Os poucos direitos foram embora junto com o sujeito, agregado a sua dignidade. Mulher alguma merecia aquilo.

Fazia uma bela manhã, a jovem estava arrumando e rearrumando sua cama quando alguém bate a sua porta desesperadamente. Assim que abre, rapidamente um homem bem trajado lhe convidou para uma experiência que mudaria sua vida; contudo, não poderia contar a ninguém sobre o assunto.

O homem a levou para uma sala escura e sem janelas havia somente uma alavanca, e quando esta foi acionada, nada aconteceu. A jovem, indignada com a situação, saiu da sala para falar com o tal homem, mas ele não estava mais ali, nada estava do mesmo jeito de quando ela chegou. Então, percebeu lentamente que estava num lugar onde as pessoas andavam rapidamente, chamando-a. Homens e mulheres a tratavam como princesa, estava no centro de todas as atenções; flashes de câmeras vinham por toda parte. Ela era a mulher que todas as outras queriam ser, ela tinha conquistado algo jamais imaginado por alguém: a presidência da república: supremacia máxima para uma jovem moça que antes não tinha direito algum.

De repente tudo ficou em silêncio, era incrível como uma mulher conseguira fazer uma multidão de mais de mil pessoas se calarem para ouvir tudo o que tinha a dizer, sentia-se tão sabia! Finalmente terminou seu discurso, o povo foi ao delírio, foi deixando o palanque acenando e sorrindo para todos, mas tropeçou em sua própria perna e caiu. Algumas dezenas de pessoas foram a ajudar. Ela abriu os olhos, sentou-se e colocou a mão na testa. Fora o mais estranho e excitante sonho que tivera.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Contos de quinta: A lupa.

A lupa.

Tudo parecia muito pequeno. Praticamente deformado de tão minúsculo. As imagens formavam um grande mosaico. Ora colorido, ora com poucas cores, ora uma mistura que se transformava numa cor só.

Havia uma distância certa para enxergar as coisas corretamente. Mas de onde estava o ideal seria uma lupa. Sendo assim, providenciou uma lupa e começou a observar cada serzinho e cada coisinha que os olhos alcançavam.

A lupa foi de grande valia. Ajudou a ver cada detalhe, cada pormenor, cada minudência do vai e vem dos pequenos seres e das pequenas coisas. Algumas dessas coisas estavam estáticas, outras também iam e vinham. Era realmente um conjunto fabuloso de se observar.

Um dos aspectos interessantes é que cada movimento ou atitude dos tais serzinhos acabava refletindo em algum outro local ou para algum outro serzinho. E olha que os serzinhos trabalhavam bastante, estavam sempre fazendo alguma coisa, não cansavam, não paravam nunca.

Quanto mais olhava, mais percebia que o número de serzinhos e coisas feitas por estes serzinhos aumentava. E os aumentos pareciam exponenciais. De todo modo, tudo caminhava relativamente tranqüilo.

Como não podia ser diferente, volta e meia ele pegava a lupa e aproveitava os raios do sol e ficava queimando os serzinhos ou incendiando as coisas que os serzinhos faziam. Ou então concentrava o calor nas reservas de águas dos serzinhos até que secassem.

De vez em quando ele também percebia que os serzinhos se estranhavam e cenas horríveis aconteciam. Alguns episódios eram impensados, outros planejados, premeditados. E mesmo podendo interferir, ele assistia tudo sem se importar, sem sequer resguardar os filhotes dos serzinhos.

A lupa lhe dava uma boa visão, uma visão privilegiada de tudo e tudo era diversão para ele.

Um dia, contudo, ele cansou de ficar vendo aqueles serzinhos e as coisas que eles faziam ou eles se matando ou destruindo as coisas dos outros. Jogou a lupa fora e resolveu procurar outra espécie em outra parte de seu quintal.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Contos de quinta: Noite escura.

Noite escura.

Todo o material estava em cima da mesa, esparramado. Livros, cadernos, canetas, lápis, borrachas, réguas, tudo. A chuva torrencial e incessante lá fora atrapalhava seus pensamentos. Parecia ter molhado suas idéias, encharcado de forma tão intensa que os neurônios haviam se afogado. As sinapses simplesmente não ocorriam. Um curto-circuito geral que gerou um apagão no cérebro.


De repente o apagão do cérebro se alastrou pelo bairro inteiro. Tudo escuro, e o barulho do céu caindo em forma de grossos pingos. Sentado no sofá, viu o maço de cigarros e o isqueiro na mesa de centro quando um relâmpago brilhou por uns dois segundos. Quatro segundos depois veio o estrondo que fez tremer as janelas. A rua já estava virando rio. No gramado da casa, uma lâmina que refletia os raios que se sucediam.

Do andar de cima desceu ela. Assustada, descabelada, só de calcinha e camiseta, linda. Sem falar nada se aninhou no colo dele. Ela adormeceu logo e ele tentou se esticar para pegar os cigarros e o isqueiro. Não conseguiu e desistiu para não acordá-la. Pensou num copo de uísque. Desistiu pelo mesmo motivo. Depois de mais um trovão que balançou a casa, ela pediu para subirem. Estava ficando com frio. Ele adorava isso. Erotizava os seios com os mamilos duros e pelos arrepiados pelo corpo dela. Ele sorriu, ela entendeu. Ela foi na frente, subiu as escadas sem olhar pra ele. Antes de subir, ele olhou mais uma vez o material em cima da mesa, pensou no prazo, foi à cozinha, colocou no copo três gelos e encheu de uísque. Pegou o melhor que tinha no bar da casa, já que não poderia terminar o trabalho mesmo. Queria aproveitar os 21 anos em cada gole que escorria por sua garganta. Encheu novamente o copo e subiu.

Ela estava tomando um banho gelado. Louca, pensou ele. E já sabia a resposta que ela daria, caso comentasse qualquer coisa sobre o frio dela e o banho gelado. Ela diria que se tomasse um banho quente, ficaria com mais frio na hora de sair do chuveiro. De todo modo hoje ela não tinha opção. Não havia luz. Não poderia tomar banho quente mesmo.

Com o copo na mão, ele deitou na cama e a esperou sair do banheiro. Saiu como ele imaginava: descabelada, nua, molhada, arrepiada. Linda.

Ela veio pra cima dele, beijaram-se muito, os corpos esquentaram. Mais um daqueles estrondos que sacodem a casa. Bem perto. Ao longe, gritos de algazarra. Tudo escuro lá fora e ali dentro. Ela disse que só queria dormir abraçada com ele naquela noite chuvosa. Puxou o edredom para cima dos dois. Ficaram assim, quietos, entrelaçados.

Lá embaixo, na mesa, o material continuava espalhado. Foi a última coisa que pensou antes de beijá-la de leve e dormir feliz.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Contos de quinta: Azul.

As cortinas eram azuis. Um azul forte, mas não agressivo aos olhos. O chão também era azul. De um tom um pouco mais fraco. Os móveis, mesa, cadeiras, tapetes, apoiadores, todos igualmente azuis, nem tão escuros quanto as cortinas e nem tão claros quanto o piso. Os objetos de decoração eram coloridamente azuis, em várias nuances, em diversas composições.

A única janela, de vidros levemente azuis, deixava ver o céu completamente limpo e azul. Nenhuma nuvem. O espelho, cuja moldura era de um azul tão intenso que parecia negro, refletia a minha imagem. Foi quando percebi meu terno – paletó, colete e calça – azul-marinho. A gravata azul escura, com listas azuis um pouco mais claras. E a camisa, azul-clara.

Tanto azul sobre azul estava me deixando tonto. Completamente zonzo. Parecia estar em um túnel que não ia a lugar algum. Para todos os lados que olhava, o azul sufocava. Teto azul, lustres azuis, sapatos e meias azuis. Parecia até que eu já estava sentindo o cheiro do azul. Um aroma azulado.

A visão cerúlea estava me deprimindo. Estava tendo alucinações com baleias-azuis, que nem azuis na realidade são. Apenas no meu delírio. Muitas íris azuis piscando para mim. Engolindo-me com os olhos.

Nesse universo azul, totalmente azul, reconheço que é a cor que mais odeio, que nunca gostei, que sempre me incomodou, perturbou, tirou o sono ou me afundou.

Só o meu sangue pode ser azul. Nada mais é ou deve ser azul.

Fechei meus olhos, cortei meus pulsos e meu sangue azul inundou a sala de vermelho.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Contos de quinta: Chuva.

Chuva.

A chuva caía forte lá fora. Trovadas e relâmpagos. Como a sua alma. Mau tempo. Tempestade que parecia não ter fim. E que começou com o fim do seu relacionamento.

A janela estava fechada e ela mal via o que acontecia na rua. Do lado de fora, a chuva torrencial e o vento forte deixavam tudo um cinza esbranquiçado. Por dentro os vidros estavam embaçados. E seus olhos marejados. Com a cabeça encostada no batente, sua respiração formava desenhos sem nexo no vidro úmido. Sem nexo como suas idéias. Embaçados como suas idéias.

Perdeu o controle da sua vida. De uma profissional promissora passou a ser uma eterna expectativa. Dos bons projetos aos sonhos que nunca cumpria. E do fim do relacionamento que era o grande amor da sua vida às tentativas de aventuras deslumbradas. Perdeu as amigas apesar de se achar amiga de todos. Perdeu as confidentes embora nunca tenha se aberto verdadeiramente.

As nuvens estavam negras e os seus pensamentos nublados. Não sabia se estava vivendo ou sonhando. Ou num pesadelo. Sonhou demais. Queria de volta sua carreira, seus projetos, suas amigas, seu amor. Queria largar os comprimidos e os medos. Queria acordar.

Lá fora a chuva torrencial inundava as ruas. Lá dentro as lágrimas lavavam seu corpo sem vida.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Contos de quinta: O corpo.

O corpo.

Ele estava ali no chão, mergulhado em sangue. Arrumado como se fosse sair, para uma balada, talvez. A imagem era sufocante. O telefone tocou e eu não sabia se deveria atender ou simplesmente deixar tocar até alguém do outro lado se cansar. Parou. Em menos de um minuto voltou a tocar. Parece que o alguém do outro lado desistiu definitivamente. Estava escuro naquela sala, mas no sangue brilhava o reflexo da luz do poste da rua. Ao longe uma sirene. Fiquei em dúvida se deveria ficar e tentar explicar o inexplicável ou se deveria fugir sem sequer olhar para trás. No bolso da minha calça achei um pedaço do papel com um número de telefone. De repente tive a impressão que ele se mexeu. Deve ter sido apenas impressão mesmo. Ou algum reflexo post mortem que um médico explicaria facilmente. Alguém bateu na porta. Três batidas secas e fortes. Será que é a mesma pessoa do telefone? Aquele número no papel, na minha mão. O alguém bateu novamente. Mais forte agora. Três batidas ainda. Escutei um barulho de vidro quebrando. Uma janela provavelmente. Saí correndo da sala, achei uma porta nos fundos. Fugi sem olhar para trás.

Ele estava ali no chão, mergulhado em sangue. De pijama, como se tivesse sido atingido ao acordar. A imagem era estranha. O telefone tocou e eu não sabia se deveria atender ou simplesmente deixar tocar até alguém do outro lado se cansar. Parou. Estava escuro naquele quarto, mas no sangue brilhava o reflexo da luz do poste da rua. O telefone voltou a tocar. Parou. Parece que o alguém do outro lado desistiu definitivamente. Ao longe uma sirene. Não distingui se era da polícia ou de ambulância. Em cima da cama eu vi um pedaço de papel com um número de telefone. De repente tive a impressão que a mão dele havia tocado minha perna. Espero que tenha sido só impressão. Não saberia explicar o inexplicável. Alguém bateu na porta. Três batidas fortes e secas. Será a mesma pessoa do telefone? Aquele número em cima da cama. Peguei o papel. Ouvi o barulho do vidro de uma janela quebrando. Olhei pra trás e saí correndo pela porta dos fundos.

Ela estava ali no chão, mergulhada numa poça de sangue. De lingerie. Não sei se estava se arrumando para sair para a balada ou se despindo para dormir. A imagem era triste. O telefone tocou e eu não sabia se deveria atender ou simplesmente deixar tocar até alguém do outro lado se cansar. Parou. Em menos de um minuto voltou a tocar. Parece que o alguém o outro lado desistiu definitivamente. Estava escuro naquele quarto, mas no sangue brilhava o reflexo do relógio digital ao lado da cama. Ao longe uma sirene. Fiquei em dúvida se deveria ficar e tentar explicar o inexplicável ou se deveria fugir sem sequer olhar para trás. Em cima da cama as roupas dela. Belas e caras roupas. De repente tive a impressão que ela tinha lambido minha canela. Era um filhote de lhasa apso que saiu debaixo da cama. Não latiu, só olhou para mim. Alguém quebrou o vidro de uma janela com uma batida forte e seca. Será a mesma pessoa do telefone? A sirene estava mais perto. O cachorro voltou pra baixo da cama. Tentei alcançá-lo, mas não consegui. Peguei a arma e saí correndo pela porta dos fundos.

Acordei.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Contos de quinta: Perfume.

Depois de uma longa apnéia criativa, volto aos Contos de quinta, sem prometer aos meus leitores a assiduidade de outrora. Apenas prometo que tentarei. Para recomeçar, uma pequena história de reencontro.

Perfume.

Ela estava ali, distante. E praticamente ao alcance das minhas mãos. Olhando a vitrine, mas sem ver as roupas. Era essa a impressão, pelo menos. Sete anos depois... quem diria? Não pensava em encontrá-la tão cedo. Se é que sete anos pode ser considerado pouco tempo. Vendo-a, dali, os sentimentos misturavam-se. Não sabia se ficava apenas observando, se ia falar com ela ou se jogava uma pedra na cabeça dela. Hehe... pensei que os sentimentos tinham acabado, mas apenas estavam misturados e escondidos em algum lugar.

Foi difícil perdê-la. Mas tudo indica que ela fez a escolha certa. Eu era apenas um fotógrafo de jornal. De um jornal pequeno, diga-se. Ela uma jornalista ambiciosa, com sonhos, muitos sonhos. Nosso amor parecia perfeito; todos diziam que combinávamos. E um dia ela não quis mais. Cansou de namorar um fotógrafo de jornal pequeno, que não lhe dava maiores perspectivas. Acabou conhecendo um jornalistazinho inglês afetado e pernóstico. Não é fácil sentir-se trocado por alguém tão sem sal.

Depois descobri, pelos amigos em comum, que o jornalistazinho inglês afetado e pernóstico era, na realidade, um americano gente boa, inteligente e divertido, principal âncora de uma grande rede de televisão inglesa. Realmente a competição ficou difícil. Ela fez a escolha certa, afinal. Logo se transformou em correspondente internacional enquanto eu continuo um fotógrafo de um jornal pequeno. Possivelmente um fotografozinho metido e ranzinza de um jornaleco meia boca.

Nunca mais tinha ouvido falar dela. Os amigos em comum agora não existiam mais. Trocava o canal quando ela aparecia no noticiário da televisão em rede nacional falando alguma coisa sobre a Europa. Não lia as reportagens assinadas por ela. Eu continuava apenas tirando minhas fotos das tragédias humanas medíocres para o pequeno jornal.

O perfume continuava o mesmo. Sei que isso praticamente era impossível depois de tantos anos na Europa, mas foi o cheiro que senti. Ela ainda tinha seu charme, mas o ar estava mais sério. Não estava vendo aquele sorriso que nunca abandonava seu rosto. Ela adorava sol e o dia estava lindo; céu sem nuvens. Por isso, ainda mais, aquele rosto sem sorriso era estranho. O que será que fazia por aqui tantos anos depois?

Taquicardíaco, aproximei-me ainda mais dela, lentamente, aspirei profundamente seu perfume e continuei meu caminho em direção ao meu pequeno jornal sem graça.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Contos de quinta: Frango a la carte.

Hoje o conto de quinta será um pouco diferente. Sem palavras, apenas imagens. Deve ser visto até o final.



Visto originalmente no Culture Unplugged.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Contos de quinta: O estranho caso do besouro gigante.

O estranho caso do besouro gigante - Parte final. (Parte I - clique aqui)

Durante alguns segundos nenhum dos dois se mexeu. Enquanto o menor continuava paralisado, o inseto foi se reaproximando. Encostou novamente no cidadão, como se quisesse mostrar alguma coisa. Como se quisesse se comunicar. Foi o empurrando devagar. Saíram do beco onde estavam e foram caminhando. No inicio o cidadão estava andando de costas. Depois andaram lado a lado.

Quando o cidadão se deu conta já estava em frente a sua casa. Teve uma estranha sensação de que se comunicava mentalmente com o bizarro bicho. Abriu o portão rangente e entrou na frente. O inseto passou um pouco pelo espaço aberto, um pouco por cima do pequeno muro de tijolos à vista.

Ao subir os quatro degraus que davam para a varanda de sua casa, o cidadão se virou e ficou olhando o monstro. Voltou os olhos para a porta e novamente para o bicho. Calculou mentalmente o tamanho do inseto e imaginou se passaria pela porta. Entrou em casa, acendeu as luzes e ficou esperando. O besouro gigante foi se aproximando aos poucos, espremeu-se pela porta e entrou, derrubando alguns enfeites que estavam na mesa na parede ao lado da porta.

Depois de olhar para os cacos, o bicho se acomodou em um dos sofás da sala. O maior. O cidadão pegou uma cerveja na cozinha e voltou pra sala, sentando em uma poltrona de frente para o esquisito bicho em sua esquisita posição.

- Precisamos de um nome pra você – falou em voz moderada.

O inseto continuou olhando para o cidadão bebendo cerveja.

- Mas... que nome? Rubro-negro? Gigante? Zé? Não, não... não combinam com você. Você é muito bizarro... É isso, hehe... acho que é isso mesmo. Bizarro. Seu nome, daqui em diante, é Bizarro.

O cidadão pegou uma tigela de plástico, encheu de cerveja e deu para o Bizarro beber, enquanto entornava a sua segunda garrafa. Ligou a televisão e ficaram vendo aquelas séries americanas antigas enlatadas. Parecia que o besouro ria junto com o cidadão.

No outro dia, ao tempo que o cidadão cortava a grama do jardim de sua casa, Bizarro cuidava, do seu jeito, dos canteiros e dos outros insetos. Na hora do almoço assaram carne na churrasqueira nos fundos da casa e beberam mais cerveja. Falavam pouco entre si, mas havia uma estranha comunicação telepática.

No final do dia o quintal estava perfeito. Jogaram um pouco de futebol no gramado cortado. Depois de mais cerveja foram dormir. O monstro dormia na rua, numa tenda improvisada pelos dois. Dentro de casa já havia quebrado muitas peças e louças.

Quando acordou, o cidadão sentiu um cheiro estranho. Sua cama toda molhada. As paredes manchadas, respingadas. Tudo vermelho. O lençol ensopado no chão, em direção à porta. Uma dor lancinante. Olhou para baixo e não viu suas pernas. Apenas dois tocos ensangüentados e ainda sangrando, com os ossos despedaçados e a carne triturada. Só conseguiu gritar desesperadamente.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Contos de quinta: O estranho caso do besouro gigante.

O estranho caso do besouro gigante.

Certa noite, caminhava o cidadão pelas ruas vazias, escuras e quentes da silenciosa cidade. Prédios margeando seus passos, casas com as luzes acesas algumas, apagadas outras. Nem os cães ladravam. O estranho silêncio acompanhava o andar do cidadão. Apenas o barulho dos seus próprios sapatos, já gastos, embora limpos. O mesmo não se poderia falar das ruas. Aqui e ali as lâmpadas dos postes piscavam. Outras estavam completamente apagadas, provavelmente queimadas. As restantes emitindo uma luz fraca, amarelada. Nestas, muitos insetos fazendo suas danças e seus malabarismos no entorno.

O cidadão apenas andava, sem destino. Pensava na vida. Às vezes conseguia pensar em nada. Limpava a mente. Entretanto, algo chamou sua atenção para a próxima esquina. Caminhou lentamente até lá, dobrou a esquina e ficou olhando. Surpreso. Analisou vagarosamente, detalhadamente, a estranha criatura a sua frente.

Parecia um monstro. Um monstruoso besouro, para ser mais exato. Seis patas enormes e peludas, todo preto, com uns riscos vermelhos. Ficou atônito na frente do inseto. Mudo, quase sem respirar. O besouro, por sua vez, concentrou-se no cidadão. Olhava, também. Praticamente parado, também. Apenas mexendo as antenas. O bicho deu um passo lento. O cidadão recuou. Sem falar nada. Não porque não queria, mas simplesmente porque não conseguia. Teve a intenção de gritar, mas não conseguiu. Fechou os olhos.

Abriu somente quando sentiu um bafo em seu rosto. O besouro estava praticamente enconstado em seu nariz. O cidadão não sabia se se mantinha congelado ou se saía correndo. Por medo ficou parado mesmo. O monstro resolveu cutucar o cidadão. De leve, sem machucar, como se estivesse dando sinais de boas intenções. O cidadão respirava profunda e vagarosamente. As gotas de suor já escorriam por sua testa. Suor frio que igualmente lhe molhavam as costas.

Deu um passo para trás. O inseto se assustou e deu uns dois ou três passos também para trás, levantando-se um pouco, o que o fez parecer ainda mais gigante do que já era. O cidadão fechou os olhos e se franziu, esperando o pior.

Continua...

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Contos de quinta: O pulo.

O pulo.

Talvez uns trinta metros. Sim, talvez uns trinta metros entre o peitoril da janela e a rua. Uma distância razoável. Quem sabe? Muito provavelmente não vai sobrar muita coisa, mesmo. Será que é verdade que os suicidas que pulam de grandes alturas morrem antes de se esborracharem no chão? Será que a taquicardia é tanta que o coração realmente para antes do fim? Do fim da queda, claro; porque se o cara morrer antes, pode-se dizer que temos o fim antes do fim. Deve ser um vôo interessante. Rápido, mas interessante. Será que dá para ver as vizinhas pelas janelas andares abaixo? Será que estarão se trocando? Melhor se estivessem nuas. Seria uma recompensadora visão do paraíso – dependendo a vizinha, claro – antes de ir para o inferno. Pelo menos é o que dizem por aí: que quem se mata vai para o inferno. Sem escalas, sem purgatório, sem chances de uma subida para ares mais frescos. Pelo lado positivo, e sempre existe um, por pior que a situação pareça, meus amigos ou estão ou irão para lá, mais cedo ou mais tarde. A festa, no final das contas, ou das vidas, vai ser boa. Se é que existem inferno, céu e meio-termo, claro. Ai, ai. Voltando às vizinhas se trocando com as janelas ou cortinas abertas. Enquanto uns se matam se explodindo e levando junto quem estiver por perto para ter as virgens no paraíso deles, eu poderia ter as mulheres – ou vê-las, ok, ok, só vê-las – antes da minha morte. Ou no processo pré-morte. Rápido processo, nesse caso. Ai, ai. Contudo, tem sempre alguém pra te sacanear. Mesmo que não saiba que está te sacaneando. Como esse meu vizinho de cima, por exemplo, que resolveu escutar Chico logo agora. O Chico Buarque de Holanda, eu digo. Não o Chico Science. Nada contra o Chico. Ao contrário, até gosto dele. O Buarque, eu digo. Mas o vizinho só pode estar me sacaneando ao escutar a essa hora Construção, do Chico. Ai, ai. Ou então é um sinal. Sinal de que estou no caminho certo e que estou me enrolando para terminar isso de uma vez. Ai, ai. Espero não cair em cima de ninguém. Até porque cair embaixo de alguém daqui seria impossível. De todo modo, matar alguém sem querer e não morrer não seria uma sensação das mais agradáveis. Ai, ai. Por outro lado, como diz a música, parece que algo é inevitável: vou atrapalhar o tráfego. A polícia, o socorro, os para-médicos, os bombeiros que se virem, também. Afinal paguei tantos impostos para que? Ai, ai. Que bom que o dia está bonito. Detestaria terminar tudo num dia chuvoso, feio. Já basta o meu estado post mortem que não vai estar lá dos mais bonitos. Porra, será que minha cara vai ficar muito arrebentada? Ou ficará como um pacote flácido no meio da rua, como diz o Chico? E se pular para cair em pé? Não sei, acho que não vai dar certo igual. Meus fêmures vão parar nas clavículas. Ficaria muito tosco. Talvez economizasse no caixão dessa forma. E se cair de costas? Será que sobra alguma coisa? Acho que o caixão vai fechado seja qual for a posição que eu me estatelar no chão. Ai, ai. A sensação de liberdade e de voar deve ser boa. Ai, ai. Qual será a manchete do jornal? “Imbecil se joga do décimo andar e atrapalha a vida dos transeuntes”. Ou “Homem em provável estado de depressão não agüenta a pressão e se mata no centro da cidade”. Ou, ainda, em um tom mais romântico: “O que será que leva um jovem a se jogar da janela de seu belo apartamento? Um amor não correspondido? Dívidas antigas? Uma vida secreta? Ninguém mais saberá...”. Não, não, ninguém vai colocar uma manchete dessas em nenhum jornal. Talvez no da escola onde estudei. Pensando bem, acho que nem lá. Ai, ai. Nenhum idiota parou lá embaixo para pedir pra eu me jogar. Nos filmes isso sempre acontece. É. Não vai ser dessa vez. Está esfriando aqui fora. Vou entrar que o jogo de futebol já vai começar na televisão.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Contos de quinta: Eternos.

Eternos.

1940.

O casamento havia sido simples, mas os noivos não se importaram com isso. Para eles foi a mais bonita e magnífica cerimônia que já tinham presenciado. O padre disse belas palavras. O dia estava bonito. A pequena capela, florida e perfumada. Os poucos convidados, emocionados. Ali começou uma vida a dois batalhada, longa e amorosa. Alguns reveses e muitas alegrias. Cinco filhos (dois homens e três mulheres), quinze netos entre rapazes e garotas, dezoito bisnetos. A família sempre cresceu unida, um apoiando o outro, seguindo os exemplos de retidão da matriarca e do patriarca. Nunca foram ricos, mas também nunca passaram necessidades. Sua fortuna consistia na alegria constante e na união inquebrantável. Aqueles noivos novos viram seus filhos crescerem, estudarem, constituírem suas famílias, seus netos e bisnetos nascerem e brincarem. Viram seus cabelos brancos surgirem, a pele enrugar e endurecer, os movimentos ficarem limitados, a respiração cansar mais rápido. Viram o auge da era do rádio, a popularização da televisão e o aparecimento da internet, mesmo sem saber muito bem para que serviria, afinal. Viram guerras e armistícios, sistemas crescerem e entrarem em colapso, economias quebrarem, governos entrarem e saírem. Viram o tempo passar. Aproveitaram, respeitaram, viveram. E se amaram. Amaram-se como é difícil imaginar que se possa amar. Amavam-se até quando brigavam. Amavam-se inclusive quando não concordavam. Amavam-se simplesmente. Suas almas estavam ligadas.

2010.

Os filhos revezavam-se no hospital. Os netos ajudavam e confortavam. A família continuava unida. Triste, mas ainda unida. O patriarca estava em coma há duas semanas. A matriarca internada em estado que refletia cuidados, mas ainda bem lúcida. Um corredor os separava, cada um em um quarto. Quando conseguia, a esposa, com dificuldades, ia ver seu marido. A dor era grande, o medo maior ainda. No seu leito, ela falava para seus filhos e netos que ultimamente em suas orações apenas pedia um último privilégio para Deus. Entendia ter sido abençoada com vida por demais boa e feliz, com um marido insubstituível e com filhos, netos e bisnetos maravilhosos, mas, ainda assim, queria mais um privilégio. Dizia para seus filhos, em especial para as filhas, que já que a vida foi tão completa, que Deus concedesse a possibilidade de o casal deixasse o mundo terreno junto. Os olhos dos filhos e netos marejavam. Entretanto sabiam que a vida de um jamais existiria sem a do outro. Eram pessoas que se completavam e não resistiriam mais sem sua metade. Eram, na realidade, uma vida só. Na semana seguinte a mãe entrou também em coma. Dois dias depois o pai faleceu, às 9 horas. Às 21 horas do mesmo dia a mãe também se foi, sem saber que o marido havia partido 12 horas antes. Foram juntos. Foi-lhes concedido mais este privilégio.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Contos de quinta: Strip-pôquer.

Pela primeira vez o Contos de quinta publicará o texto de um leitor. Na realidade de uma leitora que mandou o conto sob um pseudônimo: Lua Negra. Repito que qualquer interessado em participar poderá entrar em contato que será um prazer publicar.

Strip-pôquer.
Tudo começou quando li um conto... num blog por aí. Não lembro muito bem porque, mas a certa altura o conto trazia a palavra “strip-pôquer”. Fiquei interessada. Não. Acho que não há problemas em admitir que a excitação era o real sentimento. Ótimo, eu estava precisando sentir alguma coisa que me surpreendesse, algo que mexesse comigo de uma forma intensa, quente. Entretanto, eu tinha um problema. Não sabia jogar pôquer.

Pensando sobre isso, pesquisei na internet sobre as regras (obviamente sem admitir que minha ânsia não era pelo pôquer, e sim pelo strip). Achei complicado. Pra quê tanta complicação se no final das contas o único objetivo é tirar a roupa? Claro, o problema é que eu nasci mulher, e, portanto, um ser incompreensível, incapaz de admitir seus instintos e vontades simplesmente, sem justificativas.

Bom, mas eu tinha uma justificativa, afinal. Precisava aprender a jogar pôquer. Falei com um amigo. Ele ficou empolgado (mais do que devia, considerando que não coloquei a palavra “strip”, antes da palavra pôquer). Fingi que não senti a alteração no seu tom de voz, assim como tentei não imaginar por onde andava sua imaginação nesse momento. Seria possível que nenhum homem pudesse ser meu amigo, simplesmente, sem intenções ocultas?

Ignorei o fato de conhecer sua real intenção, e marcamos nossa primeira aula. Foi legal, apesar de complexo. Como as pessoas podiam se divertir tanto jogando isso? Não sei. E também não quero saber, considerando que na verdade eu adoraria perder uma partida depois da outra, pra que o strip fosse perfeito. Aliás, esse pensamento deu origem a uma pergunta interna... com quanta roupa eu deveria ir, no fim das contas? Se fossem muitas roupas, eu teria que perder muito antes de mostrar a lingerie, linda, rendada e preta que eu já havia comprado (pode me chamar de ansiosa, eu não ligo).

Perdão pela distração. Vamos voltar ao que interessa. Fui embora depois da primeira aula um pouco surpresa, já que meu amigo não demonstrou nenhuma má intenção. Será que eu estava decepcionada? Não... impossível. Na verdade não era impossível, porque de repente me senti ansiosa pela segunda aula, e por esse motivo lhe telefonei ainda do carro, a caminho de casa. Ele pareceu gostar disso, e eu não me incomodei em tentar disfarçar que também gostei. Era quinta feira e, para não demonstrar minha ansiedade, marquei para sábado.

Sábado acordei animada, ansiosa. Passei o dia sem comer, pois não queria aumentar nem um único centímetro de minhas medidas, afinal - recordei, um pouco constrangida - a lingerie era mínima. Me arrependi de já ter comprado. Agora ia essa mesmo.

Eu ainda não admitia que queria jogar strip-pôquer com meu amigo, mas apenas por precaução passei o dia todo cuidando de mim. Ainda precavida, coloquei a lingerie. Nessa hora voltou a dúvida: muita roupa ou pouca roupa? Acabei optando por uma meia 7/8, na altura das coxas, a renda combinando com a lingerie. Joguei um sobretudo por cima, e mais nada.

Saí meia hora mais cedo do que o necessário, com medo de que pudesse perder a coragem. O que ele pensaria de mim? Valia a pena perder um amigo por uma fantasia sexual? Não! Fantasia sexual?!!? Derrotada, admiti para mim mesma pelo retrovisor que, a essa altura, minha tara pelo strip-pôquer já podia ser considerada isso, até porque já incluía beijos, mordidas e sexo sobre a mesa cheia de cartas e fichas. Decidi que sim. Decidi também que não pensaria nas consequências.

Quando cheguei no prédio dele, me perguntei se entrava ou não, considerando que eu estava adiantada. Entrei. Mulheres são ansiosas demais para esperar dentro do carro, ouvindo música e olhando para o vazio, como os homens fazem.

Ele gostou de me ver. Ou seria imaginação? Eu gostei de vê-lo. Caramba, por que eu era tão insegura? Empinei o nariz, mexi no cabelo e cruzei porta adentro, sentando no sofá e olhando, de canto, a mesa arrumada com as fichas e as cartas. Ferrou. Minhas pernas tremeram e senti, envergonhada, que não conseguia mais conter minha excitação, pedindo para começarmos logo e já arrependida de não ter colocado muita roupa, afinal, não queria que ele pensasse que eu era fácil. Tarde demais.

Sentamos à mesa e ele me perguntou se eu lembrava das regras. Eu lembrava, acho. Mas sugeri que jogássemos valendo dessa vez, porque a maneira mais fácil de aprender a fazer alguma coisa, era fazendo. Começamos o jogo, e, como era óbvio, ele ganhou a primeira, e, sinceramente, nem entendi o que significava. Mas fiquei animada pois ele buscou a segunda garrafa de espumante... (não queria admitir, mas a primeira tomei praticamente sozinha)

Ele abriu a segunda garrafa e encheu as taças... iniciamos a segunda partida, mas mais rimos e bebemos do que jogamos. Fui buscar a terceira garrafa, confesso que para me certificar de quantas garrafas havia, o que me empolgou, porque ainda tinha quatro! Havia três possíveis motivos para isso, pensei: 1. Ele imaginou que a noite seria boa; 2. Ele imaginou que eu era tímida e precisava beber para me soltar ou... 3. Ele estava mais habituado do que eu pensara a trazer mulheres para um strip-pôquer bem animado, e já estava abastecido. Resolvi não pensar mais nisso. Eu não voltaria atrás agora, independente do que acontecesse.

Voltei para a mesa com a terceira garrafa, mas não sentei na cadeira, como ele esperava. Sentei na mesa, na frente dele, abri as pernas. Depois cruzei. Abri os botões do sobretudo, um a um. Ele apenas olhava. Senti um súbito pânico ao imaginar que pudesse ter confundido tudo e apenas imaginado que ele também me desejava. Estaquei no último botão... vi um lapso de dúvida em seus olhos e então uma decisão. Levantou, me deitou na mesa, desabotoou o último botão. Interpretei o sorriso torto como um sinal de que gostou do que viu. Ele riu mais, beijou meu umbigo, brincou com o piercing e passou o dedo por minha tatuagem... me arrepiei.

Queria agir também, puxá-lo, abraçá-lo. Mas não consegui. Estava bom demais para que eu ousasse me mexer. Fiquei paralisada, apenas sentindo... fechei os olhos e descobri que sentir sua boca em meu corpo e tentar adivinhar para onde ela estava indo era melhor do que olhar por onde ela ia.

Quando não aguentei mais, fiz o que esperei toda a noite pra fazer. Tirei de uma vez o casaco, os sapatos, o prendedor do cabelo. E dominei a situação. A única luz que havia era a da cozinha, que eu havia deixado acesa quando fui buscar a última garrafa, o que era bom e ruim ao mesmo tempo, pois eu queria ver suas expressões e reações, mas não seria capaz de olhar nos olhos dele, diretamente.

Foi bom. Ok, admito. Foi melhor do eu esperava. Nunca me imaginei fazendo aquelas coisas com ele. Não jogamos mais pôquer aquela noite, mas ele me fez vestir e tirar a roupa para ele mais três vezes. Rimos, bebemos as outras garrafas de espumante e por fim dormimos. Exaustos. Acordei pela manhã, minha cabeça rodando, meus pensamentos confusos. Me descobri no tapete da sala, junto com algumas cartas e fichas que caíram da mesa durante a loucura toda. Lembrei. Senti vergonha. E agora, como seria? Decidi que o melhor era sair dali o mais depressa possível e resolver isso comigo mesma. Levantei, e na pressa de sair dali não encontrei nada, nem calcinha, nem sutiã, nem meias. Apenas saí, totalmente nua, a não ser pelos sapatos, pelo sobretudo e pelas lembranças.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Contos de quinta: O jogo (parte final).

O jogo - parte final.
(Primeira parte clique aqui).

O casal se olhou sem saber o que poderia estar acontecendo. Outro barulho, seguido de mais gritos de Fernanda. Os dois se levantaram e correram para o quarto. Tentaram abrir a porta desesperadamente, mas estava trancada. Mais sons fortes e gritos dentro do quarto. Diego batia na porta com toda a força que tinha. Martina chamava pela amiga. Estava em pânico. Foi correndo para a cozinha procurar alguma coisa que pudesse abrir a porta.

De repente muito sangue começou a escorrer por baixo porta. Diego largou a maçaneta e deu um passo para trás. Olhou para o chão e para a porta. Perguntou-se de onde viria tanto sangue. Começou a bater com mais força na porta. Com os punhos, com os ombros, com mais força do que pensou ter.

Martina voltou correndo e, ao ver o sangue no chão, deu um grito, parou e soltou a faca que segurava. Começou a chorar e falar ao mesmo tempo. Dentro do quarto os gritos de Fernanda ainda não tinham parado, embora estivessem mais baixos, já misturados com choro e palavras incompreensíveis.

Diego pegou a faca do chão, suja de sangue, e, tremendo, enfiou no buraco da fechadura tentando abrir a porta. Ao seu lado Martina chorava histericamente. Diego gritou para que ficasse quieta, o que não adiantou. Forçando a faca, ele a deixou escapar, cortando-se. Novamente a faca estava na poça de sangue, que aumentava e escorria pelo corredor. Voltou a esmurrar e chutar a porta, chamando por Marcos e Fernanda, que continuava gritando.

- Martina, faça alguma coisa. Liga pra polícia, vai.

Ela correu pra sala, tirou o telefone do gancho e percebeu que estava sem sinal. Desesperada começou a procurar algum aparelho celular. Nos sofás, na mesa, nas bolsas. Achou o seu e ao digitar o primeiro número o telefone apagou, sem bateria. Jogou o aparelho na parede, que se desfez em vários pedaços.

- O que você tá fazendo, sua louca?

Ela nem respondeu a Diego e continuou procurando. Já não estava mais chorando, mas seu coração saía pela boca. Enquanto isso, exausto, tentava arrombar aquele pedaço de madeira inerte que o separava de seus amigos. Lembrou que havia uma janela no quarto e saiu correndo em direção à porta da frente. Tentaria fazer alguma coisa pelo lado de fora da casa. Ao abrir a porta, percebeu que estava fechada. Trancada. Sem chave.

- Martina, cadê a chave da merda dessa porta?

Ela parou o que estava fazendo. Olhou para ele desolada e respondeu:

- O Marcos nunca tranca essa porta quando a gente está aqui, porque sempre entra e sai alguém...

Diego não acreditava no que ouviu. Olhou para Martina com seus olhos de dúvida e forçou a porta que não se mexia. Os dois correram para as janelas tentando abri-las e também estavam todas, de alguma forma, trancadas. Correram para a porta a cozinha, nos fundos da casa e igualmente absolutamente travada. Estavam encarcerados na casa do amigo, com uma poça de sangue escorrendo de um dos quartos para a cozinha e uma amiga gritando desesperadamente lá dentro.

Martina olhou para Diego e correu para as gavetas do armário, procurando uma faca ou algo pontudo. Pegou a maior faca de carne que achou, no que foi imitada pelo amigo. Os dois, devagar, foram em direção ao quarto onde seus amigos estavam trancafiados. Só havia silêncio agora. Diego encostou vagarosamente sua orelha na porta para tentar escutar alguma coisa. Teve a sensação de escutar respirações ofegantes.

De repente as luzes se apagaram. Tudo ficou no breu absoluto. Diego mal teve tempo de olhar para cima, procurando a luminária. A porta foi arremessada violentamente em sua direção, jogando-o contra a parede e fazendo-o cair desacordado e com a faca cravada na barriga.

Martina, com as duas mãos na cabeça, apenas gritava. Desesperadamente.

Dois dias depois, os corpos dos quatro jovens eram resgatados pela polícia, sob os olhares atônitos dos vizinhos que não estavam entendendo nada.